O ritual do café que construiu Viena
“Viena é uma cidade construída em torno de alguns cafés onde os vienenses se sentam e tomam café”, disse Bertolt Brecht — e com razão. Ao atravessar as portas de um café vienense encontra-se não apenas uma bebida, mas um universo: mesas de mármore, o perfume do café recém-passado, o som cadenciado de xícaras e conversas que atravessam décadas. Esses espaços foram reconhecidos em 2011 como Patrimônio Imaterial da UNESCO, um tributo ao seu papel social, cultural e histórico.
Da história às xícaras: como nasceu a tradição
A lenda conta que, após o cerco de 1683, quando tropas otomanas recuaram de Viena, os cafes e grãos de café chegaram à cidade e deram início a uma nova rotina urbana. Ao longo dos séculos, especialmente a partir da Exposição Universal de 1873, o café vienense ganhou projeção internacional: visitantes de todo o mundo descobriram a elegância discreta desses salões, que se tornaram refúgios de artistas, pensadores e viajantes.
O Melange e muito mais: uma carta de sabores
No coração dessa tradição está o Melange, a assinatura austríaca: um espresso levemente diluído, leite quente e uma espuma delicada — uma taça de conforto que convida ao Dolce Far Niente. Mas os clássicos não param por aí. Nas melhores casas encontra-se uma carta com mais de 40 variações de café: do intenso ao cremoso, passando por infusões aromatizadas e interpretações sazonais.
Cafés como palcos da cidade
Os cafés vienenses sempre foram mais do que lugares para beber: são espaços de encontro e debate, onde a sociedade se encontra. Em tempos frios, são o epicentro caloroso das manhãs e tardes; na penumbra das lâmpadas antigas, compositores, jornalistas e leitores se misturam às mesas largas. Muitas das mais encantadoras casas permanecem perto do centro histórico, preservando a atmosfera dos tempos dos Habsburgos e o gesto ritual de acompanhar uma fatia de torta — pense na textura da Sachertorte ou no aroma do Apfelstrudel — enquanto se saboreia a cidade.
Evoluções contemporâneas: tradição e inovação
Hoje, o cenário vienense vive uma diálogo entre memória e inovação. Ao lado dos salões clássicos surgem bares de café de terceira onda, baristas artesãos que exploram torra única, métodos de extração e o respeito pela origem do grão. Há também espaço para versões vegetarianas e veganas das clássicas sobremesas, cold brew para tardes quentes, e iniciativas que valorizam o comércio justo e microtorrefações locais.
Como viver essa experiência
Andiamo: para sentir a cidade, sente-se, peça um Melange, feche os olhos e deixe a luz dourada de Viena tocar a espuma. Observe as mãos que preparam o café, ouça o tilintar das colheres e prove a textura do tempo nas paredes. É um ritual sensorial que revela pequenos segredos — um atendimento que parece pessoal, uma mesa onde se escreveu um manifesto, uma fatia de bolo que conta gerações.
Se você planeja viajar, reserve um tempo para esses lugares: eles não são apenas paradas gastronômicas, são verdadeiras aulas de convivência. Ciao, e boa viagem ao encontro dos sabores e histórias vienenses.
Por Erica Santini — La Via Italia: hospitalidade sofisticada, relatos que convidam ao aperitivo e ao descobrimento.
















