Arrivederci in Francia! Ciao, Italia! Essas palavras vão marcar o fechamento dos Jogos e sintetizam o gesto simbólico que transformará a pista final em ponte entre edições. A cerimônia de encerramento de Milano Cortina 2026 promete ser um espetáculo pensado para a televisão global, mas também revela, em sua encenação e logística, muito do debate em torno do esporte contemporâneo na Itália.
No ensaio noturno a poucos dias do evento, a cena era quase cinematográfica: luzes azuis, raios tipo discoteca cortando o céu e uma praça — a Piazza Bra, em Verona — cercada por grades, microfones e altifalantes calibrados para não deixar nada ao acaso. Da Arena, onde o peso da tradição lírica sempre fez questão de regular o decibel, saiu uma plateia “de papel”: figurantes e técnicos que tentaram simular o calor humano que a televisão multilocalizada exige.
O espetáculo central — anunciado como Beauty in Action, um “relato do Belpaese através da arte e da música” — foi recebido com ceticismo por quem acompanhou as provas. Há quem lembre que, quando Roberto Bolle subir no palco, a coisa ganhará outro tom; outros preferem o formato mais cru e urbano que se viu em Milano. Em linha com essa tensão entre o espetáculo e a autenticidade, a produção aposta em tecnologia: são previstas cerca de 500 câmeras coordenadas entre a Rai e a Prefettura para tentar manter cativos os dois bilhões de espectadores anunciados e, ao mesmo tempo, afastar a imagem de caos.
Segurança e controvérsia caminham juntas. Esperam-se manifestações contrárias — com faixas “Olimpiadi, no grazie” e protestos contra o que definem como «insostenibilità, ingiustizia e militarizzazione» —, mas a área do evento foi transformada numa zona de acesso restrito: militares em pontos estratégicos, helicópteros sobrevoando e um cordão que, na prática, fecha o centro. A leitura social é clara: um espetáculo global que tenta almejar a paz de imagem enquanto, do lado de fora, se discute o custo e o impacto de uma megaoperação.
Nas ruas, o efeito é visível e menos festivo do que a cartilha olímpica idealizava. Estacionamentos vazios, comércio com movimento baixo e muitos veroneses que optaram por se afastar. Hotéis praticaram tarifas que chegaram a 1.200 euros a noite, e o turista passou a ser o principal personagem de uma cidade parcialmente tomada pela indústria do evento. Foi um padrão repetido em várias sedes descentralizadas dos Jogos: vilas de atletas espalhadas, cidades-sede com picos e vales de ocupação, e uma Cortina e uma Bormio que, por vezes, alternaram entre lotação e solidão.
Do ponto de vista esportivo, haverá um desfile de cerca de 1.400 atletas chamado a fechar a imagem coletiva. Os portadores da bandeira italiana serão a biatleta Lisa Vittozzi e o patinador Davide Ghiotto, nomes escolhidos a partir do quadro de medalhas que deu à Itália uma edição histórica. Ambos se disseram emocionados e surpresos com a nomeação — um gesto que, além do simbolismo esportivo, carrega carga de narrativa: quem representa a nação na despedida traduz também escolhas identitárias do momento.
O encerramento mostrará ao mesmo tempo a potência técnica da transmissão e as fissuras do modelo: um show “além da Arena” — expressão vaga que esconde a dificuldade de construir uma festa que funcione tanto para quem está na praça quanto para quem assiste em casa. E, por fim, o gesto final: a passagem do bastão para a França, destino da próxima edição conforme planejado, que transformará a despedida numa promessa de continuidade europeia.
Como analista, vejo nesses minutos finais não apenas entretenimento, mas a cristalização de um debate: até que ponto os grandes eventos conseguem equilibrar memória coletiva, benefício local e espetáculo global sem sacrificar o tecido social? A cerimonia de encerramento de Milano Cortina 2026 será, mais do que um adeus, um espelho desse equilíbrio — ou da sua ausência.






















