Por Marco Severini, Espresso Italia
Bruxelas — Em um movimento que redesenha, ainda que provisoriamente, o mapa das alianças dentro da União Europeia, a Hungria anunciou que vetará o 20º pacote de sanções contra a Rússia, contaminando a tentativa de enviar uma mensagem unificada a Moscou na véspera do segundo aniversário da invasão. No centro do impasse está a interrupção do trânsito de petróleo pelo oleoduto Druzha, que conecta a Rússia à Hungria e à Eslováquia através do território ucraniano.
O ministro das Relações Exteriores húngaro, Péter Szijjártó, foi categórico: enquanto não houver a retomada das entregas por aquele corredor, Budapeste não permitirá a adoção do pacote. Em suas palavras publicadas em rede social, Szijjártó afirmou que “até que a Ucrânia restabeleça o trânsito de petróleo para a Hungria e Eslováquia via Druzha, não permitiremos que decisões importantes para Kiev avancem”.
Budapeste responsabiliza Kiev pela não reparação do oleoduto, danificado por ataques russos recentes. A acusação, se verdadeira ou parcialmente verdadeira, insere-se numa lógica de interdependência energética que volta a funcionar como elemento de pressão política: a energia como peça numa partida de xadrez geopolítico, onde um lance no tabuleiro dos fluxos corta as opções do adversário.
A reação dos parceiros europeus mistura irritação e pragmatismo. A Alta Representante para a Política Externa da UE, Kaja Kallas, externou publicamente desapontamento e ceticismo: “Estamos fazendo o possível para aprovar este pacote de sanções, mas, tendo ouvido declarações muito fortes da Hungria, não acredito que mudem de posição”, declarou, expressando uma resignada frustração. Kallas também advertiu contra a instrumentalização de temas não relacionados: “Não devemos ligar coisas que não estão conectadas”, pediu, ao chegar ao Conselho de Assuntos Exteriores.
Na prática, a delegação húngara sinalizou que pretende bloquear não só o pacote de medidas económicas a Moscou, mas também qualquer arquivo ligado ao apoio à Ucrânia, transformando uma disputa logística sobre um oleoduto em veto político com efeitos amplos. A UE, por sua vez, vê a necessidade de manter unidade justamente num momento simbólico — o aniversário do início da agressão russa — quando enviar um sinal claro a Moscou tem significado estratégico.
Não é a primeira vez que questões energéticas tensionam o clube dos 27: há um ano foi a Eslováquia que ameaçou vetar decisões por interrupções no fornecimento de gás. Esse padrão revela a fragilidade dos alicerces energéticos europeus e como infraestruturas transnacionais podem transformar-se em alavancas de poder e contenção.
Ao longo do dia, o Conselho de Assuntos Exteriores será forçado a jogar com prudência: ouvir explicações, medir possibilidades de superação do impasse e calibrar respostas que não agravem fissuras internas. Para observadores de geopolítica, trata-se de mais um movimento decisivo no tabuleiro — menos dramático que uma batalha campal, mas igualmente capaz de redesenhar frentes de influência.
Enquanto diplomatas buscam saídas técnicas e compromissos discretos, permanece a pergunta estratégica: até que ponto um veto motivado por energia preserva interesses nacionais e até que ponto ele compromete a coesão europeia num momento em que a tectônica de poder na região exige um frente comum?
Assinatura: Marco Severini — análise e estratégia internacional






















