BRUXELAS — Em um movimento calculado no tabuleiro institucional europeu, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou hoje a roadmap que define a agenda de competitividade da União Europeia, batizada de «Un’Europa, un mercato». Ao lado do presidente do Conselho Europeu, António Costa, von der Leyen traçou prazos e marcos destinados a reconstruir os alicerces industriais e financeiros da União com vistas a garantir uma posição mais sólida no cenário global.
Segundo a presidente, a Comissão apresentará no próximo encontro de líderes, nos dias 19 e 20 de março, “um plano de ação e um calendário, com objetivos e prazos”. O objetivo estratégico é ambicioso e cristalino: atingir a operacionalização dessa agenda até o final de 2027, desenhando uma arquitetura normativa e institucional que permita à UE competir em escala planetária.
Entre as medidas antecipadas, Von der Leyen anunciou para abril diretrizes sobre concentrações empresariais, destinadas a facilitar fusões e aquisições que possam criar operadores de grande escala, os chamados «campioni europei». Trata-se de uma tentativa deliberada de corrigir o que a Comissão descreve como lacunas criadas tanto pela legislação comunitária quanto por resistências nacionais, que, na prática, têm impedido a formação de grandes grupos competitivos no mercado global.
Antes do conselho de março, a Comissão também avançará com a proposta conhecida como Industrial Accelerator Act, um quadro legislativo europeu projetado para acelerar a criação de empresas, com regras harmonizadas e reconhecimento mútuo entre os Estados‑membros. Na mesma janela temporal será apresentado o 28º regime regulatório para negócios digitais, um passo prático para uniformizar condições de operação em toda a União.
No campo financeiro, von der Leyen afirmou a intenção de cristalizar o primeiro estágio da união das poupanças até junho. Caso os avanços fiquem aquém do necessário, a Comissão está pronta a contemplar a via da cooperação reforçada, onde um mínimo de nove países poderia prosseguir de forma mais integrada, sem obrigar os 27 a mover‑se em conjunto — uma jogada institucional que respeita a diversidade do tabuleiro europeu, ao mesmo tempo que procura desbloquear maior coordenação.
O mercado de energia figura como componente inseparável da estratégia: a Comissão prepara um programa detalhado de infraestrutura e organização do mercado energético. Von der Leyen admitiu que não há consenso fechado, mas antecipou que levará ao próximo Conselho várias opções concretas para debate.
Como analista com visão de longo prazo, vejo nesta iniciativa mais do que um pacote técnico: é um redesenho de fronteiras invisíveis da política europeia. A proposta procura alinhar instrumentos regulatórios, financeiros e industriais para criar zonas de influência competitivas, preservando a coesão interna e minimizando fricções nacionais. Em termos de geopolítica econômica, estamos diante de um movimento destinado a alterar a tectônica de poder entre blocos, apostando na integração seletiva e na rapidez de implementação.
O cronograma delineado por von der Leyen é ambicioso e exige coordenação política intensa. Se as peças forem colocadas com precisão, a UE pode transformar vulnerabilidades atuais em vantagens estratégicas; caso contrário, corre o risco de perpetuar uma fragmentação que beneficiará competidores externos. Em suma, este é um jogo de xadrez estratégico, onde cada movimento regulatório deverá ser calculado para construir, até 2027, um grande tabuleiro de mercado verdadeiramente integrado.






















