Por Marco Severini — Em um movimento que revela mais do que omissão, a postura oficial da Comissão Europeia diante das recentes ameaças do presidente Donald Trump contra Cuba denota um recalibrar estratégico: preservar a relação com Washington em detrimento de declarações firmes sobre direitos e segurança humanitária na ilha. A apreensão provocada pelas ameaças de tarifar fornecimentos de petróleo a Cuba — medida que visa desestabilizar o regime mas que pode desencadear uma grave crise social — foi recebida em Bruxelas com um silêncio institucional pouco consolador.
Quando questionada, Paula Pinho, chefe do serviço de porta-vozes da Comissão Europeia, limitou-se a dizer: “Não temos comentários no momento”. A resposta oficial complementar, vinda por meio de Anour el Anouni, porta-voz da Alta Representante para a Política Externa e de Segurança, Kaja Kallas, desviou o foco para a persistente preocupação sobre o respeito aos direitos humanos em Cuba e o apelo europeu para que as autoridades cubanas protejam esses direitos. O contraste entre silêncio prático e declarações de princípio evidencia um dilema comum na diplomacia de grandes potências: falar com franqueza ou preservar alinhamentos.
Curiosamente, a própria Kallas, ao responder a uma interpelação parlamentar, havia afirmado a necessidade de “pôr fim ao embargo dos EUA e às questões conexas, como a inclusão de Cuba na lista de Estados que apoiam o terrorismo”. Essa posição formal parece, no entanto, colidir com a contenção adotada pela Comissão quando confrontada com uma iniciativa americana que promete consequências diretas sobre a vida de milhões de cubanos.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um cálculo de risco: manter intactas as linhas de comunicação e cooperação com a administração norte-americana ou assumir um posicionamento que possa tensionar ainda mais um relacionamento já marcado por interesses geopolíticos convergentes e divergentes. A opção por evitar uma crítica explícita aos anúncios de Washington passa a impressão de que, na prática, a União Europeia valida — por omissão — medidas destinadas a asfixiar economicamente uma população. Essa equivalência entre silêncio e legitimação tem implicações morais e políticas que transcendem a retórica.
Na cartografia das influências internacionais, estamos vendo um redesenho de fronteiras invisíveis: a prioridade europeia hoje parece ser não contrariar o que eu chamo de eixo de influência transatlântico emergente, mesmo quando isso cria alicerces frágeis para a defesa dos direitos fundamentais. É um movimento decisivo no tabuleiro que privilegia a estabilidade da aliança sobre a coerência normativa.
Em última instância, a atitude de Bruxelas expõe tensões internas na diplomacia europeia e coloca em evidência a necessidade de um discurso que conjugue pragmatismo e princípios. Se a UE pretende ser um ator credível numa arena global onde a tectônica de poder se move rapidamente, deverá calibrar melhor os seus sinais: o silêncio institucional perante ameaças que podem gerar uma crise humanitária em Cuba não é apenas uma ausência de voz, é um posicionamento estratégico — e, como todo movimento no xadrez geopolítico, terá consequências.






















