Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, discretamente, o tabuleiro da segurança europeia, a Comissão Europeia apresentou em 11 de fevereiro o novo Plano de ação para enfrentar as crescentes ameaças representadas por drones e plataformas aéreos não tripuladas. A iniciativa surge após episódios reiterados de sobrevoos, incursões com balões meteorológicos e violações do espaço aéreo que forçaram fechamentos de aeroportos e expuseram a vulnerabilidade de infraestruturas críticas, fronteiras externas e espaços públicos.
O vocabulário político também foi revisto: o conceito inicialmente proposto como “Muro de Droni” foi relido pela Comissão. Como explicou a vice‑presidente executiva com a pasta de soberania tecnológica e segurança, Henna Virkkunen, o termo poderia sugerir um artefato físico — uma barreira estática — quando o que se busca é uma arquitetura integrada de resposta. O comissário para Assuntos Internos e Migração, Magnus Brunner, lembrou que a questão não é apenas defensiva. A tecnologia dos drones evolui em ritmo acelerado; aparelhos comerciais já transportam cargas de 15 quilos e percorrem centenas de quilômetros. Manter a liderança tecnológica é, portanto, também uma questão de competitividade e soberania industrial.
O Plano de ação assenta-se em quatro prioridades coordenadas: 1) melhorar a preparação; 2) reforçar capacidades de deteção; 3) coordenar respostas entre Estados‑membros; e 4) elevar a prontidão defensiva da UE. No núcleo prático dessa estratégia está um novo enfoque sobre desenvolvimento tecnológico e aumento rápido da produção industrial, com medidas específicas que combinam elementos civis e militares.
Entre as iniciativas previstas figura a elaboração de uma mapeamento industrial civil‑militar coordenado, destinado a atrair investimentos e fomentar interoperabilidade entre setores; o fortalecimento das capacidades de teste através de um futuro Centro de excelência anti‑drone da UE; e a criação de um sistema de certificação para sistemas antidrone. Será também lançado um Fórum da indústria de drones e antidrone para estreitar o diálogo entre decisores públicos e o setor privado, acelerando assim a produção de soluções tecnológicas.
Paralelamente, a Comissão apresentará um Pacote sobre a segurança dos drones civis, que moderniza as normas vigentes, prevê uma avaliação coordenada de riscos e introduz um selo de segurança comercial, a etiqueta “EU Trusted Drone“, destinada a identificar equipamentos confiáveis no mercado. Brunner anunciou ainda que o Centro de excelência deverá começar a operar em 2027, e que os fundos europeus serão alinhados para impulsionar inovação e escala produtiva.
No campo operativo, a UE fornecerá diretrizes claras para operadores de infraestruturas críticas, lançará um projeto‑piloto para reforçar a vigilância marítima e apoiará Estados‑membros na proteção contra ameaças de alta altitude, como os balões meteorológicos e outras plataformas similares. Essas medidas visam preencher lacunas táticas e operacionais que, até agora, evidenciaram alicerces frágeis da diplomacia e da segurança coletiva.
Do ponto de vista estratégico, este pacote é um movimento pensado em duas frentes: consolidar uma defesa coerente no curto prazo e desenhar, a médio prazo, uma base industrial que sustente a autonomia tecnológica europeia. Trata‑se de alinhar incentivos, certificações e capacidades de resposta — uma partida de xadrez em que cada peça, se colocada com método, reforça a estabilidade do conjunto.
Resta o desafio político de equilibrar liberdade tecnológica, mercado interno e prerrogativas de segurança. A eficácia do Plano dependerá da velocidade com que os Estados‑membros aceitarem a coordenação prática — interoperabilidade de equipamentos, partilha de dados e regimes de financiamento conjunto — e da capacidade de converter inovação em produtos testados e certificáveis no mercado.
Em suma, a União procura traduzir uma percepção de vulnerabilidade em um roteiro que combine proteção imediata e construção de soberania tecnológica. É uma jogada cuidadosa no tabuleiro europeu: não um muro impenetrável, mas uma arquitetura de defesas móveis e certificadas, pensada para resistir às mudanças rápidas do ambiente tecnológico e geopolítico.






















