Bruxelas — À sombra do castelo de Alden Biesen, onde os chefes de Estado e de governo da União Europeia se reúnem em 12 de fevereiro de 2026, desenha-se um confronto de prioridades que é, acima de tudo, um desafio de tempo e escala. A urgência proclamada em torno do mercado único traduz-se num imperativo: acelerar. Mas como traduzir essa pressa em política efetiva, sem desmontar os alicerces sociais e industriais do bloco?
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apresentou em plenário uma proposta ambiciosa — uma tabella di marcia comum para o mercado único até 2028. A intenção é clara: levar esse roteiro, em conjunto com Parlamento e Conselho, à aprovação já no Conselho Europeu formal de 19 e 20 de março, com o compromisso de adotar rapidamente propostas-chave até o fim do próximo ano. No vocabulário institucional, trata-se de traduzir estratégia em cronograma mensurável — um movimento decisivo no tabuleiro político europeu.
O elemento central da receita da Comissão é a semplificação. A metodologia passa pelos chamados pacotes omnibus, agora peça angular da ação comunitária para desburocratizar regras e acelerar decisões. Para o PPE, representado no Parlamento pelo líder Manfred Weber, essa via é acertada e permanece correta.
Porém, a proposta encontra resistência vigorosa. Os Verdes, através do co-presidente Bas Eickhout, contestam a narrativa: para eles, o problema não é normativo, e sim de financiamento. Citando o relatório Draghi (cuja tradução integral para o italiano foi publicada pela Eunews), Eickhout lembra que para projetar a UE numa competição real com Estados Unidos e China seriam necessários entre 750 e 800 bilhões de euros por ano — cifra que a BCE teria elevado à ordem de 1.200 bilhões. Em comparação, todos os pacotes omnibus juntos somariam cerca de 15 bilhões, isto é, praticamente 1% desse esforço. “É tempo de focar os 99% restantes”, argumenta o deputado verde, numa crítica que desloca o debate do micro (remoção de entraves) para o macro (investimento estratégico).
A voz socialista, liderada pela capogruppo S&DI Iratxe García Pérez, insiste numa outra fresta do mesmo debate: não se pode competir erodindo salários e direitos laborais. “Mais integração que proteja os trabalhadores, não apenas os lucros”, resume a sua posição, lembrando que estabilidade social é pré-condição para competitividade sustentável.
Em Bruxelas reconhece-se que o encontro informal no castelo não se reduz à semplificação. Fontes comunitárias salientam que os líderes vão discutir também instrumentos de investimento, governança industrial e coordenação estratégica — peças de um mosaico que pretende reequilibrar a tectônica de poder económica do continente. A cena é, portanto, uma confluência de prioridades: desburocratizar para vencer o curto prazo, e mobilizar recursos estratégicos para jogar com vantagem no xadrez global.
Na forma, a proposta de Von der Leyen aparece como um plano maestro: cronograma, metas e um calendário de aprovação política. Na substância, a sua concretização depende de consensos que atravessam grupos políticos com visões distintas sobre trocas entre regras e investimentos. O encontro em Alden Biesen funcionará, assim, como uma sessão de cartografia estratégica, onde serão redesenhadas fronteiras invisíveis entre política industrial, direitos sociais e competitividade.
Num tabuleiro onde cada movimento altera linhas de influência, a União Europeia procura conciliar rapidez e profundidade — e evitar que a pressa por simplificar crie fissuras nos alicerces da sua diplomacia económica.






















