Bruxelas — Em um movimento que reconfigura mais um quadrante da geopolítica industrial, a Comissão Europeia iniciou uma investigação aprofundada sobre a chinesa Goldwind, produtora global de pás e tecnologias para a energia eólica. O inquérito, anunciado em 3 de fevereiro de 2026, segue apurações preliminares e investiga se a empresa beneficiou-se de subsídios estatais que podem ter distorcido o mercado no interior da União Europeia (UE).
Segundo o executivo comunitário, os trabalhos começaram com uma análise preliminar em abril de 2024. Com base nessa fase inicial, a autoridade antitruste da UE encontrou indícios suficientes para avançar para uma investigação formal ao abrigo do Regulamento sobre Subsídios Estrangeiros (Foreign Subsidies Regulation — FSR). A dúvida central é se medidas como subvenções diretas, regimes fiscais favoráveis ou financiamentos oficiais em condições privilegiadas tornaram a Goldwind artificialmente mais competitiva, prejudicando fornecedores e concorrentes europeus no mercado de turbinas e serviços eólicos.
Este capítulo expande um atrito já conhecido: no passado, a UE reagiu à concorrência chinesa no setor das renováveis com tarifas anti-dumping sobre painéis solares made in China, numa política iniciada em 2013 que influenciou por anos o comércio transcontinental. O confronto estendeu-se também ao segmento dos veículos elétricos, com medidas tarifárias europeias dirigidas a modelos chineses. Agora, a disputa desloca-se de forma nítida para o universo do vento, onde a rivalidade tecnológica e comercial assume caráter estratégico.
Do ponto de vista técnico, a investigação examinará distintos instrumentos de apoio estatal: desde subsídios diretos até medidas fiscais e empréstimos em condições concessionais. A ameaça percebida pela Comissão é a de que tais apoios tornem a oferta de turbinas eólicas e serviços conexos substantivamente mais competitiva em relação às empresas que operam sob regras de mercado na UE — alterando, assim, o equilíbrio competitivo e os investimentos no setor.
A Câmara de Comércio Chinesa na UE (CCCEU) reagiu com prontidão, manifestando «profunda preocupação» e criticando o uso repetido e, segundo a entidade, desproporcional do FSR contra empresas de capital chinês. A nota da CCCEU afirma que as investigações têm interrompido atividades comerciais e gerado incerteza nos mercados europeus, com perdas bilionárias diretas e indiretas desde a entrada em vigor do regulamento. Essa resposta caracteriza o enquadramento diplomático do caso: além do aspecto econômico, trata-se de um movimento de poder simbólico no tabuleiro das relações UE–China.
Do meu ponto de vista, como analista que acompanha a tectônica de poder e o desenho de eixos de influência, esta investigação é um movimento decisivo no tabuleiro. Não se trata apenas de uma disputa comercial: é uma tentativa de reconstituir alicerces regulatórios que salvaguardem a cadeia industrial europeia e que imponham limites às práticas de apoio estatal externo que possam alterar mercados abertos. A investigação da Comissão Europeia será acompanhada de perto por governos, fabricantes e investidores — e poderá redesenhar fronteiras invisíveis de acesso a contratos e cadeias de suprimento estratégicas.
Em suma, com a abertura formal do inquérito à Goldwind, a UE abre um novo capítulo na gestão da concorrência internacional em setores críticos de transição energética. A questão é agora operacional e política: como equilibrar a atração por tecnologias essenciais à descarbonização e a necessidade de evitar distorções que minem a competitividade autêntica das indústrias locais. No tabuleiro, cada movimento terá efeitos duradouros.






















