Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com precisão cartográfica, os contornos do comércio global, a União Europeia e a Índia anunciaram em Nova Delhi uma intensa parceria comercial que, depois de quase duas décadas de negociações, se traduz na criação de uma zona de livre comércio entre dois polos democráticos e econômicos fundamentais do planeta.
Na capital indiana, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao lado do primeiro‑ministro Narendra Modi e do primeiro‑ministro português António Costa, qualificou o entendimento como a “mãe de todos os acordos comerciais”. A expressão captura a natureza estratégica do pacto: uma resposta europeia ao recrudescimento do mercantilismo fora das regras, impulsionado pelo recente retorno de políticas protecionistas em Washington.
O acordo entre a UE e a Índia envolverá, segundo estimativas oficiais, a eliminação progressiva de tarifas sobre cerca de 96,6% das exportações europeias rumo ao subcontinente — uma mudança que implicará um alívio fiscal estimado em aproximadamente 4 bilhões de euros por ano para empresas da União. Hoje, o fluxo comercial bilateral supera os 180 bilhões de euros anuais; a Comissão Europeia projeta que as exportações de bens da UE para a Índia poderão dobrar até 2032.
Entre os pontos técnicos já divulgados, Nova Deli teria concordado, de forma escalonada, em reduzir tarifas sobre automóveis europeus de uma taxa atual de cerca de 110% para 10%, com a eliminação completa de encargos sobre peças de reposição no prazo máximo de dez anos. Linhas tarifárias para máquinas, químicos e produtos farmacêuticos também serão substancialmente reduzidas ao longo da década. Em contrapartida, a União facilitará o acesso de produtos indianos — em especial aço, têxteis e fármacos — ao mercado europeu.
O capítulo agrícola permanece delicado: a memória das intensas controvérsias que acompanharam o acordo com o Mercosul está viva nos corredores de Bruxelas. Expectativas de salvaguardas, quotas e regras sanitárias farão parte das negociações técnicas que serão finalizadas nos próximos meses.
Estratégica em vários planos, a iniciativa traduz um movimento calculado do xadrez diplomático: a UE aposta na liberalização seletiva com economias emergentes — Indonésia, Mercosul e agora a Índia — para contrabalançar vetores de pressão comercial externos. É um movimento que busca solidificar alicerces económicos e tecnológicos: a Europa aporta capital, inovação e tecnologia; a Índia aporta escala demográfica, competências em serviços e dinâmica industrial.
Do ponto de vista geoestratégico, o acordo oferece à União um acesso privilegiado a um país de quase 1,5 bilhão de habitantes e de crescimento econômico acelerado — cifras que, em termos de tectônica de poder, alteram a distribuição de influências em áreas industriais-chave, como automóvel e farmacêutica.
Restam, porém, arestas a limar: os detalhes técnicos, os períodos de transição e as medidas de defesa setorial serão negociados por equipes técnicas. No plano político, o sucesso final dependerá da gestão das sensibilidades agrícolas e industriais, e da capacidade dos governos de traduzir o acordo em benefícios tangíveis para trabalhadores e empresas.
Em suma, este é um movimento decisivo no tabuleiro comercial: a UE e a Índia não apenas firmam um pacto de comércio; redesenham, discretamente, um eixo de influência que será observado com atenção por Washington, por parceiros em desenvolvimento e por mercados globais.






















