Bruxelas — Em movimento que revela tanto diplomacia calculada quanto pressão calibrada, a União Europeia atua em dois planos sobre a delicada questão dos dazi com os Estados Unidos. De um lado, a Comissão Europeia negocia ativamente com Washington em busca de garantias; do outro, o Parlamento Europeu suspende, por tempo indeterminado, a votação dos textos jurídicos que deveriam operacionalizar o acordo alcançado em julho.
Essa aparente dicotomia é, de facto, parte de uma mesma estratégia: oferecer sinal de disponibilidade ao Executivo norte-americano enquanto se exigem, em Bruxelas, condições claras e previsibilidade jurídica — alicerces mínimos para qualquer implementação que resista a choques políticos. Como numa partida de xadrez de alto nível, cada peça se movimenta para preservar opções e ampliar margens de segurança.
O primeiro pronunciamento oficial veio do porta-voz responsável por questões comerciais da Comissão, Olof Gill, que reafirmou a intenção de ‘respeitar o acordo concluído com os Estados Unidos e continuar a sua execução’. Ao mesmo tempo, Gill sublinhou que é necessário ‘mais clareza’ sobre o quadro jurídico e político depois do pronunciamento da Suprema Corte dos EUA, que barrou as tarifas de importação promovidas pela administração Trump, e diante de novas declarações do próprio presidente sobre eventuais tarifas adicionais.
Por essa razão, o comissário para o Comércio, Maroš Šefčovič, intensificou contactos: reuniu-se hoje, 23 de fevereiro, com ministros dos Estados‑membros e programou encontros com a comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu para amanhã, 24 de fevereiro. O objetivo técnico é produzir uma resposta ordenada e juridicamente robusta ao que tem vindo a ocorrer no tabuleiro transatlântico.
Entretanto, o presidente da comissão parlamentar, o socialista alemão Bernd Lange, anunciou que ‘os trabalhos sobre o acordo UE‑EUA estão suspensos até novo aviso’, sinalizando que a votação prevista dos atos jurídicos de implementação foi adiada. O gesto não constitui rejeição do conteúdo político do acordo, mas é uma mensagem política contundente: a UE não avançará sem garantias de previsibilidade e certeza jurídica.
A vice‑presidente da comissão, Karin Karlsbro, coordenadora dos liberais europeus, reforçou que ‘não será possível votar enquanto não existir real previsibilidade em troca’. Em outras palavras, o Parlamento exige que o Executivo norte‑americano esclareça de forma convincente o caminho jurídico e político, evitando assim que os acordos sejam soterrados por decisões judiciais internas ou por declarações presidenciais voláteis.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um exercício de cartografia diplomática: desenham‑se, sem alterar formalmente fronteiras, os contornos da confiança e da cooperação futura. A Comissão negocia, pedindo garantias e clareza; o Parlamento, desde sua torre de vigia, retém a autorização final enquanto não obtiver segurança jurídica. É uma sequência metódica que visa reduzir riscos e evitar soluções precipitadas que comprometeriam a estabilidade das relações comerciais transatlânticas.
Para a administração em Washington, a mensagem é dupla: há disponibilidade europeia, mas esta deve ser compensada por compromissos tangíveis que afastem incertezas. Para os decisores em Bruxelas, trata‑se de proteger não apenas interesses econômicos imediatos, mas também os alicerces institucionais que sustentam a governança do comércio internacional.
Assinatura: Marco Severini, analista sênior de geopolítica e estratégia internacional — Espresso Italia.





















