Por Marco Severini — Bruxelas. A Comissão Europeia publicou hoje, na Gazeta Oficial, o regulamento que determina o abandono definitivo do gás da Rússia até o outono de 2027. Esse movimento marca um redesenho geopolítico no tabuleiro energético, mas levanta dúvidas sobre a troca de uma dependência por outra: a crescente importação de GNL dos Estados Unidos.
Nos bastidores de Bruxelas, a decisão é recebida com cautela. A vice‑presidente executiva da Comissão, Teresa Ribera, reconheceu que a União Europeia “está aumentando significativamente a dependência de GNL importado dos Estados Unidos”. O comissário para a Energia, Dan Jørgensen, foi mais direto ao chamar o confronto sobre a Groenlândia de um “campanello d’allarme” — um sinal de alerta que recorda como pressões políticas externas podem alterar rapidamente os alicerces da diplomacia energética.
Os números mostram a velocidade da transformação: antes da invasão russa da Ucrânia, a Rússia fornecia cerca de 45% do gás importado pela União Europeia. Em 2024, esse peso caiu para aproximadamente 11%; ainda assim, quando se somam gasodutos e GNL, a participação russa permanece em torno de 19% do total. Hoje, a Noruega é o maior fornecedor — respondendo por um terço do gás importado pelos Estados‑membros —, enquanto o GNL americano já representa cerca de 27% do total de importações e mais de 50% do GNL recebido pela União desde 2021, tendo mais que dobrado nesse período, segundo o instituto Energy Economics and Financial Analysis.
O quadro se intensifica com acordos comerciais: o pacto sobre tarifas assinado no último verão entre Ursula von der Leyen e Donald Trump prevê que a UE destine até 750 bilhões de dólares nos próximos três anos para a compra de petróleo, gás e tecnologias nucleares dos Estados Unidos. Esse pacto funciona como um incentivo econômico de grande escala, mas também como um fator que pode acelerar a transferência de dependência.
Em reação às declarações públicas de Ribera e Jørgensen, a porta‑voz da Comissão para a Energia, Anna‑Kaisa Itkonen, enfatizou no briefing diário que as importações de GNL dos Estados Unidos “não podem ser comparadas” à dependência anterior da Rússia. As razões oferecidas são estruturais: a União Europeia teria hoje um quadro mais robusto de segurança do abastecimento, baseado na diversificação de fornecedores e no reforço das energias renováveis no território europeu. Outra diferença apontada é a forma logística do fornecimento: o gás russo transitava por gasodutos específicos, controlados por uma única empresa estatal, enquanto o GNL se apoia numa cadeia de transporte marítimo e múltiplos contratos comerciais.
Essas distinções são reais, mas não anulam os riscos geopolíticos. Do ponto de vista estratégico — e falando com a frieza de um jogador que avalia movimentações no centro do tabuleiro — substituir um monopólio por um oligopólio dependente de um parceiro com interesses globais voláteis é colocar peças sobre alicerces não neutros. A crescente exposição ao GNL americano cria novas vulnerabilidades: pressões políticas de Washington, alterações na política comercial e flutuações nas prioridades energéticas dos Estados Unidos podem reverberar diretamente nas margens de manobra dos Estados‑membros.
Concluo que a decisão comunitária confirma um princípio de Realpolitik: evitar a dependência estratégica da Rússia era imperativo. No entanto, a sustentabilidade dessa nova arquitetura depende de investimentos concretos em infraestrutura de regaseificação, interconexões regionais, reservas estratégicas e, sobretudo, do ritmo de transição para fontes renováveis que reduzam permanentemente a centralidade do gás. Sem esse duplo movimento — segurança imediata por diversificação e aceleração da descarbonização — o risco é trocar um eixo de influência por outro, em vez de construir uma verdadeira autonomia energética.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional na Espresso Italia.






















