Bruxelas — Em meio a um acelerado e perigoso redesenho das linhas de influência no tabuleiro regional, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia classificaram como “injustificáveis” os ataques perpetrados pelo Irã contra diversos países vizinhos. A reação comunitária, tímida e fragmentada, espelha a dificuldade dos governos europeus em alinhar uma resposta coerente perante aliados tradicionalmente mais interventores no teatro.
Desde 1º de março, a sequência de ações militares escalou com rapidez: fontes ocidentais confirmam que o Israel e os Estados Unidos lançaram ataques contra alvos sensíveis em Teerã, ao passo que o regime dos aiatolás respondeu com lançamentos de drones e mísseis dirigidos a cidades da região, incluindo Dubai, Abu Dhabi, Doha e até áreas em torno de Jerusalém. A tensão ganhou contornos mais amplos quando grupos aliados do Irã, em particular o Hezbollah, intensificaram lançamento de foguetes a partir do Líbano, e Israel retaliou com bombardeios sobre a capital libanesa, Beirute, onde há relatos de ao menos 30 mortos.
Organizações e meios iranianos indicam um balanço humanitário pesado: a Iranian Red Crescent Society estimou 555 vítimas decorrentes dos ataques israelenses e estadunidenses em cerca de 131 cidades, e a mídia estatal do Irã noticiou que um ataque com mísseis atingiu uma escola feminina no sul do país, causando mais de 160 mortos — dados ainda sem verificação independente.
O conflito também atingiu territórios europeus: nas primeiras horas, um drone danificou a base britânica de Akrotiri, em Chipre, incidente ocorrido após o Reino Unido autorizar o uso de suas instalações para ataques americanos contra instalações de mísseis no Irã. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reagiu publicamente no X, sublinhando que, mesmo não sendo o alvo direto, a República de Chipre conta com o firme apoio coletivo da UE frente a ameaças.
De Washington, o ex-presidente Donald Trump reafirmou a continuação das operações até o cumprimento dos objetivos declarados e fez apelos públicos para que a Guarda Revolucionária islâmica se renda, em tom que mistura advertência e ultimato. Administrativamente, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) confirmou que três militares americanos foram mortos durante as operações, enquanto Trump e outros líderes apontam a eliminação de dezenas de quadros do aparato iraniano — alegações que continuam controversas e sujeitas a confirmação independente.
No plano económico, a tectônica do poder refletiu-se imediatamente nos mercados: os preços do petróleo subiram de forma acentuada, e bolsas globais abriram em queda, impulsionadas pelos receios de perturbações nas rotas do Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Linhas aéreas cancelaram centenas de voos, numa antecipação das consequências logísticas e geopolíticas.
A União Europeia, por ora, procura uma posição que preserve a estabilidade regional sem romper completamente com os seus parceiros transatlânticos. A leitura que proponho, com a serenidade de quem observa o tabuleiro: estamos diante de um movimento decisivo cujos alicerces diplomáticos são frágeis. Cabe à diplomacia europeia trabalhar com rapidez e método para evitar que a atual sequência de ações militares derive num conflito de amplitude regional, redesenhando fronteiras invisíveis de influência e provocando consequências duradouras para a segurança global.
Marco Severini — Espresso Italia. Analista sênior em geopolítica e estratégia internacional.






















