Por Marco Severini — Em Bruxelas, a Comissão Europeia abriu uma revisão do regulamento sobre cosméticos que pode traduzir-se em acomodação regulatória para as pequenas iniciativas artesanais que trabalham com produtos naturais. Não é uma promessa vinculante, mas um movimento ponderado no tabuleiro institucional: o vice‑presidente executivo, Stéphane Séjourné, responsável pela Estratégia Industrial, confirmou que a execução da avaliação normativa está em curso.
Segundo Séjourné, a Comissão «está atualmente a efetuar a avaliação do regulamento sobre os cosméticos» e, no âmbito desse exame, pretende aferir se as normas vigentes são «eficazes, eficientes, pertinentes e coerentes» e se «os requisitos a nível da UE trazem um valor acrescentado». A avaliação incidirá em especial sobre os efeitos do quadro regulatório nas PMI e na sua competitividade.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento que procura equilibrar dois princípios aparentemente antagónicos: a proteção da saúde dos consumidores e a viabilidade económica das micro e pequenas empresas que capitalizam ingredientes locais. Séjourné sublinhou que, se a avaliação demonstrar que as regras actuais são «excessivamente onerosas para as pequenas empresas locais», a Comissão «avaliará se é possível simplificá‑las sem colocar em risco a saúde do consumidor».
Para os operadores do sector, esta abertura é significativa. O mercado europeu de cosméticos naturais foi estimado em 21,6 mil milhões de dólares em 2025, com uma previsão de crescimento anual médio de 6,4% entre 2025 e 2035. Essas cifras revelam uma dinâmica crescente alimentada por uma procura que privilegia ingredientes de origem vegetal, processamento químico reduzido e o estatuto «cruelty‑free» — critérios que potenciamente reforçam cadeias de valor locais e modelos artesanais.
Na prática diplomática que rege a formulação normativa, a Comissão move uma peça sem comprometer de imediato o resultado final: Séjourné repetiu o reconhecimento da importância das PMI e dos artesãos para a economia da UE e afirmou a intenção de assegurar que a legislação europeia seja exequível para essas empresas. A comunicação foi dada em resposta a uma interpelação parlamentar vinda dos bancos do Partido Popular Europeu.
Do meu ponto de vista geoestratégico, esta iniciativa é típica dos momentos em que a tectónica de poder económico e as pressões sociais realinham as prioridades regulatórias. A abertura para adaptar normas é um «movimento de cavalo» prudente: evita rupturas abruptas, mas reposiciona as peças para permitir uma conjugação entre segurança sanitária e revitalização de sectores locais que têm relevância social e simbólica.
Resta acompanhar o processo de avaliação técnico‑jurídica — que deverá analisar impactos, custos de conformidade e potenciais vias de simplificação — e a calendarização das propostas legislativas, caso a Comissão entenda promover alterações. Para produtores locais e governos regionais que apostam em cosméticos «da terra», a oportunidade é clara: articular evidências científicas e práticas de boa fabricação para demonstrar que a simplificação normativa pode coexistir com a salvaguarda do consumidor.
Em suma, estamos perante um redesenho discreto das fronteiras regulatórias, uma jogada que pode reequilibrar o peso das normas no tabuleiro europeu sem sacrificar os alicerces da proteção pública.






















