Em Brasília diplomática e nas ruas da Europa, a União Europeia deu um passo decisivo: uma maioria de Estados-membros aprovou o acordo comercial com o Mercosur, vencendo a resistência de Paris e reabrindo feridas na política agrícola e no equilíbrio entre capitais. A decisão, tomada na sexta-feira em Bruxelas, tem peso político maior do que mercantil — e isso ficou evidente nas reações imediatas.
Berlim celebrou. Para o chanceler Friedrich Merz, a aprovação foi “um sinal forte da soberania europeia” num momento em que a UE enfrenta tarifas protecionistas dos Estados Unidos e a pressão concorrencial da China. A Comissão Europeia confirmou que pretende assinar formalmente o acordo já na segunda-feira no Paraguai, com a presidente Ursula von der Leyen.
Mas o voto deixou uma fratura evidente: cinco governos abriram oposição clara — França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda. Paris, principal potência agrícola da UE, anunciou que vai travar batalhas no Parlamento Europeu, onde a ratificação será discutida nas próximas semanas. É raro ver a União avançar num tratado comercial com a linha direta de fogo do seu ator agrícola mais importante.
Em Paris, o impacto virou questão politica doméstica. O presidente Emmanuel Macron comunicou oficialmente o não ao acordo, mas encontrou-se pressionado entre sindicatos rurais que prometem protestos e a ameaça parlamentar da extrema direita. O paradoxo é que, mesmo sendo contra o pacto, o Rassemblement National apresentou moções de censura — acompanhado pela esquerda radical — transformando o Mercosur num detonador de crise governamental.
Nos bastidores diplomáticos, a França afirma ter conseguido salvaguardas para os agricultores, mas vozes internas, incluindo um ex-ministro, qualificaram o resultado como “um fracasso diplomático e tático”. A sensação geral: o processo seguirá adiante e a França pode ficar isolada na fase de ratificação, com custos políticos incertos.
No plano técnico, os embaixadores dos 27 confirmaram as cláusulas de salvaguarda negociadas com o Parlamento Europeu e aceitaram uma alteração relevante: a limiar para abrir investigações sobre perturbações de mercado caiu de 8% para 5%. A mudança foi pleiteada pela Itália, que até dezembro integrava o bloco dos contrários e agora votou a favor ao lado de Alemanha, Espanha, Países Baixos e países escandinavos. Sindicatos agrícolas e associações questionam se esse “freno de mão” terá aplicabilidade prática.
O debate público tende a focar na narrativa simplista de que o acordo vai inundar a UE com carne e produtos agrícolas baratos e de padrão duvidoso. Essa visão não captura o ponto central: o verdadeiro nó é o futuro da política agrícola comum (PAC) e a reconfiguração do consenso político nas áreas rurais — os alicerces do apoio a muitos governos nacionais.
Na prática, o acordo reabre discussões sobre padrões ambientais, direitos trabalhistas e controles sanitários. Para agricultores e movimentos rurais, a preocupação é de longo prazo: como preservar preços, produção familiar e sustentabilidade quando o mercado se amplia? Para a diplomacia europeia, trata-se de montar pontes comerciais sem derrubar as proteções internas que seguram a coesão social.
Como correspondente que observa a arquitetura das decisões em Roma e Bruxelas, ressalto: este episódio é menos sobre tarifas pontuais e mais sobre a construção — ou a erosão — dos mecanismos que garantem a convivência entre mercados abertos e sistemas de proteção social e ambiental. A caneta que selará o acordo na segunda-feira terá, portanto, impacto além do comércio: definirá parte do desenho político que molda o futuro rural europeu.































