Por Marco Severini
Bruxelas decidiu, em 30 de janeiro de 2026, iniciar seis novas cartas de messa in mora — equivalentes a procedimentos de infração — contra a Itália. A medida da Comissão Europeia amplia o quadro de pressão institucional sobre o governo de Giorgia Meloni, que já vinha penalizado pelo pacote de dezembro, composto por sete procedimentos, novos e em andamento.
As seis notificações abrangem um leque variado de matérias: ambiente, transportes e direitos relacionados a pensões. No centro das objeções estão duas falhas estruturais que a Comissão considera persistentes no ordenamento italiano: a implementação da diretiva das águas e o cumprimento das normas de qualidade do ar.
Quanto à diretiva sobre águas, a Comissão aponta que a legislação nacional italiana não assegura a registração de cada licença de captação ou de cada obra de retenção hídrica — por exemplo, a criação de um reservatório. Em termos práticos, trata-se de lacunas no registo e no controlo administrativo de usos da água que comprometem a transparência e a gestão sustentável do recurso.
No campo da qualidade do ar, a crítica europeia incide sobre o facto de as autoridades italianas não terem atualizado os programas de controlo da poluição atmosférica destinados a reduzir as emissões das substâncias nocivas que afetam a qualidade do ar. Essa omissão configura, para Bruxelas, um défice, não apenas técnico, mas de conformidade com metas ambientais comunitárias.
As cartas de notificação formal iniciam um processo que pode prolongar-se por vários meses, enquanto se acumulam respostas técnicas, dados e possíveis retificações legislativas. Em termos de estratégia institucional, a ação da Comissão corresponde a um movimento decisivo no tabuleiro: ao abrir vários processos simultâneos, busca-se forçar correções normativas e administrativas sem, por ora, escalar para estágios punitivos mais avançados.
Para o governo italiano, estas novas aberturas representam tanto um desafio operativo quanto um risco político. A coerência normativa e a eficácia na aplicação das regras europeias tornam-se, novamente, alicerces frágeis da diplomacia entre Roma e Bruxelas. Em especial, áreas sensíveis como gestão hídrica e poluição atmosférica têm impacto direto sobre comunidades locais, economia rural e políticas de saúde pública.
Do ponto de vista de balanço geopolítico, não se trata apenas de um confronto técnico-jurídico: a sequência de procedimentos contra a Itália redesenha, em silêncio, linhas de atrito e confiança entre o Estado-membro e as instituições europeias. O movimento da Comissão reforça a lógica de responsabilização dos executivos nacionais perante normas comunitárias — um mecanismo que, por vezes, obedece tanto a critérios legais quanto a cálculos políticos mais amplos.
Resta acompanhar as respostas de Roma e eventuais medidas corretivas. Em matérias como água e ar, as soluções exigirão ajustes regulatórios, reforço de capacidades administrativos e, acima de tudo, uma leitura de longo prazo sobre sustentabilidade e conformidade europeia — uma jogada no tabuleiro cujo desfecho será acompanhada com atenção por empresários, administrações regionais e diplomacias.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional na Espresso Italia.




















