Por Marco Severini — Espresso Italia
Fonte: serviço audiovisual da Comissão Europeia. Fotógrafo: Thierry Roge.
O movimento tectônico que vem redesenhando o tabuleiro laboral da União Europeia mostra sinais claros de consolidação: são cada vez mais as mulheres que ocupam posições nas áreas de ciência e engenharia. Dados recentes do Eurostat evidenciam uma progressão contínua — de 3,4 milhões em 2008, passando por 5,2 milhões em 2014, até atingir 7,9 milhões de mulheres nestas áreas em 2024.
Em termos percentuais, as mulheres representam agora 40,5% do total de profissionais em ciência e engenharia no bloco. O avanço não é homogêneo: os setores de serviços e de serviços de alta intensidade de conhecimento apresentam as maiores proporções, com 45,0% e 45,1%, respetivamente, enquanto a indústria manufatureira permanece mais resistente à mudança, com apenas 22,4% de mulheres entre cientistas e engenheiras.
O mapa europeu revela contrastes regionais e nacionais que são, por si só, um retrato da arquitetura social e das políticas educativas e laborais. No vértice superior estão a Letónia (50,9%), a Dinamarca (48,8%) e a Estónia (47,9%). A Letónia destaca-se singularmente: é o único Estado-membro onde a proporção de mulheres em ciência e engenharia ultrapassa a dos homens, situando-se 10,4 pontos percentuais acima da média da UE.
Do outro lado do espectro, registam-se presenças mais modestas: Finlândia (30,7%), Hungria (31,7%) e Luxemburgo (32,4%). A Itália, embora em progresso, mantém uma participação abaixo da média comunitária, com cerca de 38%.
No plano subnacional, dez regiões europeias já apontam maioria de mulheres nas profissões científicas e de engenharia. Entre elas salientam-se quatro regiões espanholas — Canárias (58,8%), Centro (52,5%), Noroeste (52,4%) e Sul (50,3%) —, duas regiões portuguesas — Açores (57,3%) e Madeira (56,4%) —, bem como regiões da Polónia (Makroregion Centralny 54,8% e Makroregion Wschodni 54,0%), uma região búlgara (Severna i yugoiztochna 53,3%) e a sueca Norra Sverige (52,0%).
Na Itália, a variação regional é nítida: o Centro apresenta a maior proporção (38,0%), seguido pelas Ilhas (37,5%), o Noroeste (34,9%), o Nordeste (34,6%) e, por fim, o Sul (31,1%). Estes números apontam para alicerces fracos em algumas regiões, onde intervenções estruturais ainda são necessárias para consolidar a presença feminina em setores estratégicos.
Do ponto de vista estratégico, a ascensão das mulheres em ciência e engenharia é um movimento de longo prazo que reflete políticas educativas, mudanças culturais e incentivos laborais. Entretanto, as disparidades nacionais e setoriais sugerem que estamos diante de um jogo de xadrez em múltiplas frentes: avanços significativos em alguns territórios, resistência em outros e, em muitos casos, avanços concentrados em serviços em detrimento da indústria.
Para atores públicos e privados, a leitura prudente é clara: consolidar ganhos exige políticas públicas que fortaleçam formações STEM desde a base, medidas de conciliação mais eficazes e incentivos que desmontem barreiras institucionais. Sem isso, os progressos poderão permanecer assimétricos — avanços táticos, mas não sempre estratégicos —, deixando partes do espaço europeu vulneráveis à perda de talento e à subutilização de capital humano.
Em suma, os números do Eurostat de 2024 constituem um marco relevante: 7,9 milhões de mulheres em ciência e engenharia na UE é um movimento de estabilidade crescente no tabuleiro europeu, mas a partida longe de terminar. As próximas jogadas decisivas serão desenhadas por políticas que transformem estas vitórias em estruturas permanentes de igualdade e eficiência produtiva.






















