Por Marco Severini — Bruxelas. Em 2024 a União Europeia manteve-se como um polo central nos fluxos migratórios globais, mas os dados do Eurostat despejam um pouco de realidade sobre o tabuleiro: o acolhimento numérico não equivale automaticamente a integração social. As estatísticas mostram um movimento expressivo, porém marcado por percepções e tratamentos diferenciados para quem nasceu fora do continente.
O quadro demográfico do ano aponta para mais de 5,7 milhões de novos chegados à UE. Deste total, cerca de 4,2 milhões são provenientes de países extra‑UE, enquanto aproximadamente 1,5 milhão são cidadãos que já residiam num Estado‑membro e se mudaram para outro dentro da União. É importante sublinhar que estes números não incluem requerentes de asilo ou refugiados ucranianos protegidos por esquemas temporários em alguns países.
No capítulo das saídas, o Eurostat estima que cerca de 3,2 milhões de pessoas emigraram para outro país, dentro ou fora da UE; entre elas, aproximadamente 1,6 milhão deixaram um país da União rumo a um território não pertencente ao bloco. Em comparação, em 2023 houve estimativas de 4,4 milhões de imigrantes extra‑UE e 1,5 milhão de transferências intra‑UE, com cerca de 1,5 milhão de emigrantes da UE para fora do bloco naquele ano.
A distribuição desse fluxo é desigual: estados de pequena população como Malta (60 imigrantes por mil habitantes), Chipre (42 por mil) e Luxemburgo (38 por mil) apresentam as taxas relativas mais elevadas, enquanto grandes países — entre eles Itália e França — mostram uma densidade de entradas mais modesta (cerca de 8 e 6 imigrantes por mil residentes, respetivamente), embora permaneçam entre os maiores em números absolutos.
No total de chegadas, a Espanha lidera com 1.288.600 imigrantes, seguida pela Alemanha (1.078.500), Itália (451.600) e França (438.600). Em quase todos os Estados‑membros, o conjunto de imigrantes originários de países extra‑UE ultrapassou os oriundos de outros países da União; exceções notáveis foram o Luxemburgo, onde 85,5% dos imigrantes vieram de outros Estados da UE, e a Romênia (56,0%). Por outro lado, as maiores proporções de imigrantes extra‑UE ocorreram na República Checa (87,0%), Itália (86,2%) e Espanha (84,5%).
Emigrações significativas também se destacam: Espanha registrou 662.300 emigrantes em 2024, a Alemanha 584.200 e a França 263.200. De modo geral, todos os países com dados disponíveis, exceto a Letônia, reportaram mais entradas do que saídas. Entre 2023 e 2024, as quedas relativas mais acentuadas no fluxo migratório foram observadas na Estônia (-29,4%) e na Lituânia (-22,3%).
Para além dos números, o relatório do Eurostat destaca um problema estrutural: pessoas nascidas no exterior dizem enfrentar níveis mais elevados de discriminação no acesso ao trabalho, serviços e vida cotidiana. Essa evidência opera como um diagnóstico dos alicerces frágeis da diplomacia social na Europa: enquanto o bloco move peças importantes no tabuleiro da demografia, a coesão interna e a igualdade de tratamento permanecem desafios críticos.
Numa leitura estratégica, temos aqui dois tipos de movimento: por um lado, o fluxo numérico que redesenha fronteiras invisíveis de presença humana; por outro, a frágil arquitetura de integração que pode minar a estabilidade social se não for reforçada. A ‹tectônica de poder› da migração obriga Estados e instituições europeias a conjugar políticas de acolhimento com instrumentos eficazes de combate à discriminação e promoção da inclusão — um movimento decisivo no tabuleiro, cuja negligência pode comprometer o equilíbrio geopolítico e social do continente.
Em suma, os números de 2024 confirmam a centralidade da União Europeia nas dinâmicas migratórias globais, mas o verdadeiro teste permanece fora dos gráficos: transformar acolhimento em integração sustentável, com igualdade de tratamento para os nascidos no exterior.






















