Bruxelas — Em um movimento que busca redesenhar os alicerces da soberania econômica europeia, o vice‑presidente executivo da Comissão Europeia para Prosperidade e Estratégia Industrial, Stéphane Séjourné, defendeu com firmeza a adoção de um selo Made in Europe. Em um artigo de opinião publicado na noite de 1º de fevereiro e subscrito por 1.141 empresas e associações industriais, Séjourné pede que Bruxelas consagre “uma vez por todas” uma verdadeira preferência europeia nos setores mais estratégicos.
À frente da agenda de competitividade — cargo para o qual foi escolhido por Ursula von der Leyen — Séjourné advertiu que, sem uma política industrial ambiciosa, pragmática e eficaz, a economia europeia corre o risco de se tornar “apenas um parque de diversões para os seus concorrentes”. A proposta surge num momento em que a tectônica de poder entre blocos econômicos se intensifica: os chineses promovem o Made in China, os americanos têm o Buy American e outras potências adotam instrumentos semelhantes para proteger recursos estratégicos. “Então por que nós não?”, questionou o vice‑presidente.
No curto prazo, a iniciativa ganha relevância prática: em fevereiro Séjourné deverá apresentar o chamado Industrial Accelerator Act, no qual a preferência europeia deverá desempenhar papel central. A equação proposta é simples e de efeito imediato no tabuleiro da política industrial: sempre que fundos públicos europeus forem mobilizados, esses recursos devem priorizar a produção comunitária e a criação de empregos de qualidade. Trata‑se de um movimento calculado para fortalecer cadeias de valor críticas e reduzir dependências externas.
Nem todas as capitais, porém, compartilham do mesmo entusiasmo. Alguns Estados‑membros receiam que exigências de compras locais desestimulem investimentos e prejudiquem, a longo prazo, a competitividade da União Europeia. Esses temores ganharão contorno nas negociações desta semana, quando os embaixadores dos 27 se reúnem para tentar um acordo sobre o empréstimo de 90 bilhões de euros à Ucrânia — com cerca de 60 bilhões destinados à aquisição de armamentos.
A proposta francesa de vincular parte desse envelope a uma preferência europeia no fornecimento de armas segue a linha adotada por Séjourné e encontra resistência, inclusive na tentativa de evitar que o Reino Unido seja incluído entre os elegíveis para comprar armamento com esses fundos. É uma disputa que mistura coerência estratégica com interesses industriais nacionais, e que terá desdobramentos no previsto encontro informal de chefes de Estado e de Governo da UE, convocado para 12 de fevereiro por António Costa, com convidados como Mario Draghi e Enrico Letta para explorações sobre competitividade e mercado único.
Do ponto de vista geopolítico, estamos diante de um movimento que é ao mesmo tempo defensivo e propositivo: é a tentativa de a Europa estabelecer, no tabuleiro global, uma linha de defesa que permita aos seus setores estratégicos respirar, investir e competir. Como numa partida de xadrez de alto nível, cada iniciativa normativa — do selo Made in Europe ao Industrial Accelerator Act — corresponde a um movimento calculado para reconfigurar zonas de influência industrial e proteger os alicerces frágeis da diplomacia econômica.
O sucesso ou fracasso dessa estratégia dependerá da capacidade de forjar consensos entre capitais distintas, equilibrar proteção e atração de investimento e traduzir a retórica em regras claras e aplicáveis. A próxima rodada de negociações será um bom termômetro para medir até que ponto a UE está preparada para consolidar uma verdadeira preferência europeia ou se permanecerá presa às velhas dissonâncias que limitam sua soberania industrial.






















