Por Marco Severini — Em Nicosia, durante a reunião informal dos ministros do Comércio da União Europeia, o comissário europeu para o Comércio, Maroš Šefčovič, desenhou um chamado à ação que combina urgência econômica com prudência estratégica. Num momento em que as linhas de influência global se redesenham, Sefčovič pediu que se reduza drasticamente o intervalo entre a conclusão dos acordos de livre comércio e a sua entrada em vigor, apontando o Mercosur como prioridade imediata.
O comissário sublinhou que a Comissão Europeia está em contacto estreito com os países da América Latina, com a Presidência do Conselho, com os Estados‑membros e com o Parlamento Europeu sobre os passos subsequentes após a pausa decidida pela Eurocâmara, que enviou o acordo para exame do Tribunal de Justiça da UE. Sefčovič destacou que “quando os nossos parceiros do Mercosur ratificarem, teremos de estar prontos também nós”, assinalando que espera que a Argentina – em uma fase decisiva no seu processo político nesta semana – possa ser a primeira a formalizar a ratificação.
Em termos de impacto prático, o comissário citou um estudo do think tank ECIPE que quantifica as oportunidades perdidas: quase 300 bilhões de euros em termos de PIB e mais de 200 bilhões em potenciais exportações desde 2021, fruto da demora em operacionalizar o acordo com o Mercosur. É uma cifra que, na sua leitura, torna evidente que «no mundo de hoje simplesmente não podemos perder tempo».
Da perspectiva geopolítica, a mensagem de Sefčovič é de duplo movimento: por um lado, acelerar o processo interno de ratificação para colher benefícios económicos; por outro, usar esses instrumentos como peças estratégicas para reduzir dependências e consolidar cadeias de valor. O comissário invocou a necessidade de concluir o processo de ratificação «dentro de um ano após o fim das negociações» e propôs que os acordos com a Índia e a Indonésia sirvam como casos‑teste para esse novo imperativo de celeridade.
Além da América Latina, Sefčovič pediu ação célere nas relações com os Estados Unidos e com a China. No caso dos EUA, frisou que a implementação de entendimentos bilaterais é essencial não apenas pelo valor direto do comércio, mas também porque facilita progressos em áreas sensíveis como os minerais críticos — um eixo de segurança económica para reduzir dependências estratégicas.
Como analista, vejo nessa orientação uma leitura realista do tabuleiro: cada acordo é uma jogada que pode reforçar posições, abrir corredores comerciais e consolidar alianças, mas a demora transforma vantagem potencial em espaço cedido a outros atores. A UE dispõe de instrumentos e expertise; falta‑lhe, muitas vezes, a coordenação política necessária para converter assinaturas em aplicabilidade.
Se a União Europeia pretende manter peso nas grandes tectônicas de poder económico, deve transformar o apelo de Sefčovič em prática: acelerar procedimentos, sincronizar agendas internas e tratar os acordos comerciais como alicerces, não como documentos para arquivo. Sem isso, o custo continuará a ser medido não apenas em euros, mas em influência perdida num tabuleiro onde cada movimento conta.






















