Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com economia e cautela, um novo eixo de influência no norte da Europa, Rob Jetten, líder do D66, prestou juramento hoje, 23 de fevereiro, no Palácio da Haia diante do Rei Guilherme‑Alexandre, tornando‑se, aos 38 anos, o mais jovem primeiro‑ministro da história dos Países Baixos.
A cerimônia marca não apenas uma alternância geracional, mas um reposicionamento estratégico do país: o retorno a uma rota europeísta após o interlúdio do governo de direita e extrema‑direita liderado por Dick Schoof, que caiu no verão de 2025. Em termos de geopolítica doméstica, trata‑se de um movimento decisivo no tabuleiro, onde a juventude política se apresenta como peça de renovação, mas reclama habilidade para navegar uma Câmara fragmentada.
O novo executivo assume a forma de um governo de minoria, uma configuração inédita nas últimas décadas neerlandesas. Após uma vitória por margem estreita sobre o Partido pela Liberdade (PVV) de Geert Wilders, o D66 firmou uma aliança programática com os liberais do VVD e os cristão‑democratas do CDA. Essa geometria política exige mediações contínuas e a construção de pontes no Parlamento para assegurar estabilidade legislativa — uma arquitetura frágil que demanda perícia negocial.
Em sua mensagem nas redes, Jetten afirmou estar “orgulhoso de poder fazê‑lo junto” e sublinhou a promessa de “compromisso para todos nos Países Baixos”. Traçou ainda a linha mestra do seu mandato: “Não nos determos no que não funciona, mas construir sobre o que pode ser melhorado. Servem coragem e colaboração.” Palavras que, em meu entendimento, são tanto convocação interna quanto sinal externo de que o governo buscará legitimação por resultados concretos.
O gesto dos pares europeus foi imediato. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, felicitou Jetten no X, destacando a intenção de colaboração em economia e segurança e convidando‑o a estreitar laços em Bruxelas na próxima semana. A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, reforçou a expectativa de que os Países Baixos contribuam decisivamente para a resposta coletiva às atuais crises continentais.
Essa recepção internacional dá ao governo Jetten um capital diplomático que precisa ser convertido em reformas internas — mais precisamente, em políticas que revigorem o mercado interno e restaurarem a confiança pública. No plano prático, o primeiro teste será a estreia parlamentar do gabinete, onde a arte da mediação terá papel central: cada votação será, potencialmente, um pequeno xeque‑mate a ser negociado.
Como analista, vejo neste episódio uma tectônica de poder que reconfigura margens e alianças: não uma ruptura brusca, mas um redesenho de fronteiras invisíveis, com o centro político a tentar recompor alicerces frágeis da diplomacia interna. O sucesso do governo dependerá de traduzir boa vontade externa em reformas tangíveis, sem perder a habilidade de costurar acordos num Parlamento onde nenhuma maioria é definitiva.
Imagem sugerida para publicação: fotografia de Rob Jetten prestando juramento no Palácio da Haia, com o Rei Guilherme‑Alexandre ao fundo e bandeiras nacionais visíveis.






















