Por Marco Severini — Em um movimento calculado no tabuleiro diplomático, o valco de Rafah, na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, foi reaberto parcialmente a partir desta manhã. A decisão, permitida por Israel, atende a uma etapa prevista no plano de paz acordado em outubro de 2025 e destina-se, em teoria, a aliviar a situação médica e humanitária — um gesto que, contudo, não altera a tectônica de poder que continua a punir civis palestinos.
Instituições internacionais e autoridades europeias tentam ler o gesto como um avanço. A alta representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, descreveu a reabertura como “um passo concreto e positivo no plano de paz”, salientando que a missão civil europeia está no local para monitorar as operações de trânsito. Em paralelo, a comissária para a Gestão de Crises, Hadja Lahbib, lembrou que as violações do cessar-fogo se mantêm, citando centenas de mortos e feridos nos ataques.
Os números dados pelo terreno traduzem o caráter limitado da medida: o posto funcionará apenas seis horas por dia, com um teto de 150 pessoas saindo e 50 entrando. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, cerca de 20 mil pacientes aguardam por cuidados urgentes — muitos deles feridos que precisariam de evacuação médica. Mesmo com a abertura controlada, o lado humanitário vê um corredor que, mais que espaço de passagem, revela linhas de fratura na arquitetura da assistência.
Enquanto isso, as bombas não cessam. No fim de semana, ao menos 30 pessoas foram mortas em Khan Younis e em Gaza City, evidenciando que o recuo parcial do bloqueio não importa uma paralisação dos ataques. A releitura cartográfica do conflito também prossegue: há relatos de que Israel teria deslocado unilateralmente a chamada “linha amarela” prevista no acordo, garantindo, na prática, controle sobre 58% da Faixa.
Outro elemento preocupante é a pressão sobre as organizações humanitárias. As autoridades israelenses exigiram que Médicos Sem Fronteiras (MSF) encerrem suas operações até 28 de fevereiro, alegando a não apresentação de listas de funcionários locais — requisito aplicado a todas as ONGs. Para a MSF, trata-se de uma imposição que coloca as organizações entre expor o pessoal ao risco ou interromper cuidados essenciais, um pretexto que muitos veem como obstáculo deliberado à assistência.
Com o novo ano, 37 organizações humanitárias foram proibidas de operar na Faixa, um movimento que reduz ainda mais a capacidade de resposta. Esta manhã, mais de 400 ex-diplomatas e altos funcionários europeus pediram à União Europeia que aumente a pressão sobre Israel para que cesse o que classificam como repetidas violações do direito internacional em Gaza e na Cisjordânia.
Em síntese, a reabertura parcial de Rafah é um lance no xadrez da diplomacia: visível, necessário, mas insuficiente para recompor os alicerces frágeis da paz. Sem a cessação real dos bombardeios, a restauração de corredores humanitários amplos e a garantia de atuação das organizações médicas, trata-se de um movimento tático que não impede o desgaste humanitário continuado — nem o redesenho de fronteiras invisíveis que determinam vidas e mortes na região.






















