Por Marco Severini — Em relatório recente do Eurostat, escritório estatístico da União Europeia, emerge um quadro de tensão social que, embora em leve melhoria, continua a revelar fragilidades estratégicas no mosaico europeu: 9,2% da população da UE declarou não conseguir manter a própria habitação adequadamente quente em 2024, uma queda de 1,4 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
O indicador de pobreza energética funciona como termômetro — e como mapa — das fragilidades internas dos Estados: na Itália, a proporção situa-se em 8,6%, ou seja, 0,6 ponto percentual abaixo da média comunitária, com uma redução anual de 0,9 ponto. Esses números, embora positivos em termos absolutos, não devem ser lidos como uma vitória definitiva, mas como movimentos em um tabuleiro onde as peças ainda exigem reposicionamento tático.
Nos extremos do mapa europeu, observam-se assimetrias marcantes. A maior dificuldade no aquecimento doméstico concentra-se em Bulgária e Grécia, ambas com 19,0% da população afetada, seguidas pela Lituânia (18,0%) e pela Espanha (17,5%). No outro extremo figuram países com menor incidência: Finlândia (2,7%), Polônia e Eslovênia (ambas 3,3%), bem como Estônia e Luxemburgo (3,6%).
O caso de Portugal merece destaque pela maior melhoria anual: uma redução de 5,1 pontos percentuais, de 20,8% em 2023 para 15,7% em 2024. Em contraponto, Malta registrou um retrocesso, passando de 6,8% para 7,8%. Nos Países Baixos, a estatística permaneceu inalterada em 7,1%.
Ampliando o olhar para fora da UE, a Suíça aparece com a menor participação de lares que têm dificuldades de aquecer suas casas, 0,7%, um leve aumento de 0,2 ponto percentual em relação a 2023.
Do ponto de vista estratégico, esses números não são somente estatística social: são indícios do estado dos alicerces da diplomacia interna e da resiliência económica dos Estados. A desigualdade no acesso ao aquecimento traduz-se em pressões políticas, riscos à coesão social e desafios para a transição energética. É necessário combinar políticas de curto prazo — proteção social, subsídios focalizados — com reformas estruturais: renovação do parque habitacional, eficiência energética e diversificação de fontes energéticas.
Como em um jogo de xadrez, cada movimento das autoridades nacionais e europeias condicionará a estabilidade do próximo lance: investimentos em infraestruturas, coordenação de mercado e políticas de preço têm de ser pensadas não só em termos económicos, mas como peças de um desenho estratégico que preserve a paz social e a capacidade de manobra geopolítica das nações.
O relatório do Eurostat serve, portanto, como um mapa para decisões que combinam prudência e ambição: mitigar a pobreza energética é, simultaneamente, uma política de bem-estar e um imperativo de segurança estratégica.






















