Bruxelas — Em um gesto calculado nas vésperas do 70º aniversário dos Tratados de Roma, a delegação do Partito Democratico no Parlamento Europeu apresentou o manifesto “Verso gli Stati Uniti d’Europa. Ora”. A iniciativa, revelada por figuras como Nicola Zingaretti e Pina Picierno, busca lançar uma nova temporada de reformas profundas, com objetivo explícito de relançar o projeto federalista europeu e neutralizar o avanço das correntes nacionalistas que fragilizam a capacidade decisória da União.
O documento parte de um diagnóstico sem rodeios: o atual grau de integração — político, económico e produtivo — já não é suficiente para proteger conquistas sociais, preservar a segurança coletiva nem sustentar uma diplomacia eficaz. Na linguagem de estratégia estatal, trata-se de reconhecer que os alicerces institucionais exigem um redesenho se a Europa pretende manter influência no tabuleiro global.
Do ponto de vista programático, o manifesto do PD concentra-se em quatro linhas mestras. Primeiro, reclama um orçamento europeu mais robusto, alimentado por dívida comum e por novas receitas próprias, com prioridades claras: inovação tecnológica, transição verde e coesão social. Segundo, defende a construção de uma verdadeira política externa e de uma defesa comum europeia, ferramentas indispensáveis para uma presença diplomática e estratégica autônoma.
O terceiro eixo aponta para o fim do poder de veto: uma chamada à reforma dos Tratados para suprimir a necessidade de unanimidade em matérias centrais, permitindo decisões mais céleres e eficazes. Quarto, o PD propõe o recurso mais amplo a cooperações reforçadas, iniciando projetos comuns com Estados-membros dispostos a avançar sem aguardar um consenso universal.
Os democratas sublinham ainda a urgência de repensar o alargamento: com a provável entrada de até 30 Estados-membros até 2030, a União corre o risco de recuar a um modelo puramente intergovernamental se não forem tomadas medidas que preservem unidade de intenção e capacidade decisória.
O manifesto critica diretamente a orientação orçamentária proposta pela Comissão — o quadro financeiro 2028-2034 — por conceber cortes que, segundo o PD, enfraquecem a coesão territorial e reduzem o espaço de atuação das políticas locais. Em termos políticos, o documento tenta também sacudir o grupo socialista no Parlamento, do qual a delegação italiana é a componente mais numerosa, deslocando-o da ala conservadora que, cada vez mais, se alinha com forças de direita.
A coleta de assinaturas em apoio ao manifesto será lançada durante a sessão plenária de Estrasburgo (9-12 de fevereiro). Nicola Zingaretti advertiu que não é a Europa em si que trava o progresso, mas as forças soberanistas hoje no poder em vários países, e afirmou que o PD não se limitará a observações orgulhosas: pretende atuar como catalisador de uma transição institucional.
Como analista de geopolítica, observo neste movimento do PD um movimento decisivo no tabuleiro europeu: não mera retórica, mas uma tentativa de reconfiguração estrutural — arquitetada para transformar as fraturas atuais em pontes institucionais, redimensionando aquilo que chamo de “tectônica de poder” dentro da União.






















