Por Marco Severini — Espresso Italia
Bruxelas — As instituições europeias reuniram-se no âmbito da Giornata della Memoria para recordar uma das páginas mais sombrias da história do continente. O Parlamento Europeu dedicou uma sessão solene ao 81º aniversário da libertação de Auschwitz pela Armata rossa, com a presença e a emocionante testemunha da sobrevivente italiana do Holocausto, Tatiana Bucci, amplamente aplaudida pelos eurodeputados.
A presidente do Parlamento, Roberta Metsola, apresentou Bucci com palavras que traduzem a obrigação moral da Europa: “Ela e sua irmã Andra eram apenas crianças quando foram deportadas para Auschwitz. Contra todo prognóstico, sobreviveram e dedicaram suas vidas a garantir que o mundo nunca esqueça o que presenciaram”. Metsola acrescentou um aviso contundente: “Pensávamos que essa lição estava aprendida, que o ódio estava confinado ao passado. Mas o antisemitismo nunca desapareceu; sobreviveu e adaptou-se. Hoje projeta ainda sua sombra sobre o continente e além.”
Os dados recentemente compilados pela Comissão Europeia reforçam essa preocupação. Cerca de 55% dos cidadãos europeus consideram o antisemitismo um problema em seu Estado‑membro e 47% percebem um aumento nos últimos cinco anos. Quase 7 em cada 10 europeus acreditam que o conflito entre Israel e Hamas em Gaza influencia negativamente a percepção sobre judeus em seus países. Fora da Europa, episódios como a chocante matança em Bondi Beach, na Austrália — onde famílias judias reunidas para celebrar o Hanukkah foram atacadas — confirmam que a ameaça é verdadeiramente transnacional.
A história pessoal de Tatiana Bucci sintetiza as rupturas antigas e contemporâneas do nosso espaço político. Sua mãe, judia ucraniana, fugiu de um pogrom ordenado naquele que então era o Império Russo sob Nicolau II, estabelecendo‑se em Fiume (atual Rijeka). Fiume, palco das disputas e realinhamentos do século XX, tornou‑se parte da Itália em 1924. Em março de 1944, Tatiana e Andra, junto com a mãe, a avó e outros parentes, foram presas e deportadas para o campo de extermínio de Auschwitz‑Birkenau. A sobrevivência das irmãs se deveu, ironicamente, àquela lógica científica perversa: o médico nazista Josef Mengele as identificou como gêmeas e as manteve para seus experimentos.
No plenário, Bucci lembrou também das crianças deportadas durante o infame rastreamento do ghetto de Roma, em 16 de outubro de 1943. Encerrando sua intervenção, hoje com 88 anos, ela expressou um desejo universal e, ao mesmo tempo, profundamente político: “Gostaria que todas as crianças do mundo pudessem ter a vida que eu tive depois da guerra”. Um lamento que ressoa com amargura quando se observa a realidade em Gaza, e em teatros de conflito como Sudão e Iêmen, onde milhões de jovens vivem sob violência, fome deliberada e privação.
Recordar não é um gesto passivo. A memória impõe responsabilidades concretas — educativas, legais e políticas — para desmontar as narrativas que alimentam a ódio e preservar os alicerces frágeis da convivência democrática. Neste instante, a Europa enfrenta uma tectônica de poder que reposiciona velhos e novos atores, ao mesmo tempo em que linhas invisíveis de fronteira ideológica passam a definir espaços de tolerância e exclusão. O desafio é transformar o testemunho em política: vigiar discursos, proteger minorias, reforçar a educação histórica e construir instituições resilientes contra o reaparecimento do ódio.
Na voz serena de uma sobrevivente, e sob o olhar atento dos legisladores europeus, a sessão no Parlamento foi menos um memorial ritual e mais um chamado estratégico. Como num movimento decisivo no tabuleiro, a ação de hoje visou bloquear a progressão de forças que, alimentadas pela desinformação e pela memória seletiva, pretendem redesenhar — em detrimento dos vulneráveis — os contornos morais do nosso espaço comum.
Que a lição de Tatiana Bucci permaneça como um farol: memória com responsabilidade é política preventiva. E a estabilidade das relações de poder na Europa dependerá, também, da capacidade de reconhecer, enfrentar e derrotar o ódio antes que ele se torne novamente estrutura.






















