Parlamento Europeu trava acordo UE‑Mercosur e solicita parecer da Corte de Justiça da UE
Em um movimento que adia uma decisão estratégica no tabuleiro das relações transatlânticas, o Parlamento Europeu optou por pedir um parecer à Corte de Justiça da UE sobre a compatibilidade jurídica do acordo comercial entre União Europeia e Mercosur. A moção foi aprovada por margem estreita: 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções.
Solicitar o parecer jurídico, ao abrigo do artigo 218, parágrafo 11, TFUE, não é mera formalidade: em termos práticos pode suspender a entrada em vigor do acordo por vários meses. Só após o pronunciamento da Corte de Justiça da UE a Eurocâmara poderá deliberar sobre a ratificação final. Entretanto, permanece em aberto a possibilidade de que a Comissão Europeia avance com a aplicação provisória do acordo enquanto o parecer não é emitido.
A proposta para remeter a questão à Corte foi apresentada por eurodeputados da esquerda europeia, dos Verdes e por uma fração dos liberais, com argumento técnico-jurídico claro: examinar “a compatibilidade com os tratados do acordo de parceria UE‑Mercosur, do acordo interino sobre trocas e do procedimento seguido para a sua conclusão”. Em contrapartida, um pedido semelhante apresentado pelo grupo dos Patriotas para a Europa foi rejeitado com votos de 402 contra, 225 a favor e 13 abstenções.
A reação da Comissão Europeia foi de visível desconforto. O porta‑voz do executivo, Olof Gill, afirmou que Bruxelas se “lamenta” da decisão do Parlamento e considera as questões levantadas não justificadas, recordando que matérias similares foram já analisadas em profundidade no passado — a referência explícita foi ao acordo com o Chile.
Do ponto de vista geopolítico e diplomático, a partida desloca‑se agora do terreno jurídico para o plano político. Amanhã, em um Conselho Europeu extraordinário, os chefes de Estado e de Governo dos Vinte e Sete terão de ponderar se autorizarão a aplicação provisória do acordo. A Comissão Europeia espera, antes de decidir, aferir o posicionamento dos líderes.
Do outro lado do Atlântico, os países do Mercosur pressionam por uma ratificação célere: a Argentina sinalizou que poderá concluir a sua ratificação possivelmente antes de março. Para esses parceiros, o atraso europeu é um revés nas expectativas comerciais e políticas.
O voto no Parlamento representa, por ora, uma vitória temporária para as lobbies agrícolas europeias. Em especial na França — potência agrícola da União — o dissenso em relação ao acordo foi canalizado em torno das preocupações com as importações agrícolas. À medida que as eleições nacionais se aproximam, Paris realinhou‑se com países como Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda contra o acordo.
No entanto, os factos técnicos mitigam parte do receio político: segundo dados oficiais, os volumes com tarifas preferenciais previstos para carne bovina seriam limitados — não excedendo cerca de 1,6% da produção da UE — e, acima desse limite, os direitos vigentes voltariam a tornar as importações substancialmente onerosas.
Como analista estratégico, vejo este episódio como um movimento ponderado no grande tabuleiro: uma jogada defensiva que procura reforçar os alicerces jurídicos e políticos antes de uma decisão final. O desenlace dependerá tanto do veredicto jurídico da Corte de Justiça da UE quanto das negociações entre executivos nacionais e das dinâmicas eleitorais internas. Em termos de arquitetura diplomática, trata‑se de um redesenho de fronteiras invisíveis — uma tensão entre interesses económicos, soberania regulatória e tectônica de poder entre continentes.
Marco Severini — Espresso Italia






















