Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento que combina memória institucional e simbolismo político, o Parlamento Europeu decidiu dedicar um de seus edifícios em Bruxelas à figura do ex-presidente David Sassoli. O anúncio foi feito pela vice‑presidente da Eurocâmara, Pina Picierno, por meio de uma publicação na plataforma X, marcando um gesto que se inscreve nos alicerces históricos da construção europeia.
Segundo a comunicação oficial, o imóvel escolhido é o Building Treves, localizado na esplanade do Parlamento, área onde se alinham palácios já nomeados em homenagem a nomes fundadores do projeto europeu, como Altiero Spinelli e Paul‑Henri Spaak. A decisão foi formalizada durante uma reunião do Bureau de Presidência, que Picierno definiu como “uma página de memória e de compromisso”.
O reconhecimento público recorda a trajetória de David Sassoli, presidente da instituição até seu falecimento, em 11 de fevereiro de 2022, vítima de complicações derivadas de uma disfunção do sistema imunológico. Para os atores políticos que se manifestaram, a denominação do edifício não se limita a um tributo pessoal, mas sinaliza um posicionamento sobre os valores que a União Europeia pretende cultivar.
Nicola Zingaretti, chefe da delegação do Partido Democrático no Parlamento, qualificou a medida como “bellissima e giusta” — uma homenagem justa e digna — enquanto a eurodeputada Camilla Laureti, também do PD e vice‑presidente do grupo dos Socialistas e Democratas, enfatizou que Sassoli “encarnou os valores da Europa: federale, solidale, giusta, democratica”. Estas palavras desenham um retrato político: a homenagem é, ao mesmo tempo, uma reafirmação programática.
Do ponto de vista simbólico, a escolha do Building Treves representa um movimento calculado no tabuleiro institucional: não se trata apenas de nomear um espaço físico, mas de redesenhar, ainda que discretamente, a cartografia dos símbolos europeus. A esplanade do Parlamento funciona como um pátio cívico onde se reintegram memórias e se projetam direções políticas. Nesse sentido, a dedicatória a Sassoli sugere um reforço da agenda europeísta que privilegia a coesão, a democracia e a solidariedade entre Estados‑membros.
Como analista que observa a tectônica do poder europeu, interpreto essa decisão como parte de um processo mais amplo: a institucionalização de legados políticos e a construção de marcos que orientem futuras gerações de decisores. A nomenclatura dos edifícios forma uma arquitetura simbólica que influencia percepções e prioridades — um tipo de “mapa” que orienta comportamentos e discursos.
O ato também tem um efeito prático: a presença do nome de Sassoli num dos edifícios centrais do Parlamento reforça, perante cidadãos e diplomatas, a identidade institucional europeia nos corredores de Bruxelas, onde as decisões e negociações traçam os contornos do continente. Em tempos nos quais os alicerces da diplomacia são frequentemente testados, tais gestos reafirmam princípios e constroem continuidade.
Em resumo, a decisão do Parlamento Europeu de dedicar o Building Treves a David Sassoli é ao mesmo tempo homenagem e sinal político — uma jogada calma e deliberada num tabuleiro que exige tanto memória quanto visão estratégica.






















