Por Marco Severini — Em um movimento que remete a um lance estratégico no centro do tabuleiro internacional, o Parlamento Europeu prepara-se para examinar o impacto do travel ban imposto pelos Estados Unidos a figuras proeminentes da regulação digital europeia. Na próxima quarta‑feira, 25 de fevereiro, a comissão para o Mercado Interno e a Proteção dos Consumidores (IMCO) abrirá o debate sobre as proibições de entrada emitidas em 23 de dezembro pelo Departamento de Estado norte‑americano, que atingiram, entre outros, o ex‑comissário para o Mercado Interno, Thierry Breton.
O foco da sessão, segundo comunicado da Eurocâmara, não ficará restrito ao caso individual: a discussão ampliará sua lente para avaliar as consequências desses travel bans sobre a soberania digital da União Europeia, sobre a aplicação das leis digitais europeias e sobre a autonomia regulatória do continente — alicerces frágeis e estratégicos da nova arquitetura digital europeia.
Serão ouvidas no plenário as próprias personalidades atingidas pelos atos administrativos: além de Thierry Breton, subirão à tribuna Josephine Ballone e Anna Lena von Hodenberg (managing directors da Hate Aid), Imran Ahmed (CEO do Center for Countering Digital Hate) e Clare Melford (CEO do Global Disinformation Index). Todas são, nas palavras do Parlamento, profissionais cujo trabalho converge em prol de um ambiente digital mais seguro e do cumprimento dos regulamentos europeus pelas plataformas online.
Em janeiro, o Parlamento já havia adotado uma resolução que condenou as medidas norte‑americanas contra Breton e outros quatro cidadãos europeus, instando a Comissão Europeia e os Estados‑membros a “responder com firmeza a esses ataques”. A resolução sublinhou que a implementação das normas digitais da UE visa garantir o estado de direito e proteger direitos fundamentais, e não punir posições políticas.
No diapasão das relações transatlânticas, o recurso ao visto como instrumento de pressão parece ganhar centralidade na política externa da Casa Branca. Exemplo recente e paradigmático é o caso do político belga Conner Rousseau, líder do partido socialista flamengo Vooruit, que recebeu proibição de viagem e estadia nos EUA por ordem do embaixador norte‑americano em Bruxelas, Bill White. A decisão, anunciada em 21 de fevereiro, ocorreu dias após Rousseau publicar um vídeo no Instagram em que, a partir de denúncias de violência por parte do ICE, comparava o presidente Donald Trump a Adolf Hitler. Em comunicado, o embaixador qualificou o vídeo como “totalmente absurdo e inaceitável” e pediu condenação imediata pelo ministro das Relações Exteriores belga, Maxime Prévot.
Bruxelas, no entanto, não parece disposta a renunciar ao direito de expressão sobre assuntos extraterritoriais. A decisão do Parlamento de levar o tema ao IMCO revela uma leitura que vai além da reação isolada: trata‑se de avaliar como práticas externas podem, em última análise, redesenhar fronteiras invisíveis da regulação e comprometer a autonomia normativa europeia — um problema de tectônica de poder que exige resposta coordenada.
Enquanto as audiências se aproximam, a discussão no hemiciclo deverá combinar considerações jurídicas, impacto regulatório e cálculo diplomático. A questão central é clara e funcional: até que ponto um Estado‑sujeito externo pode usurpar mecanismos de coerção que afetem a capacidade de um bloco regional de aplicar e fazer valer suas próprias normas? A resposta definirá, nos próximos meses, o ritmo de um reposicionamento estratégico da União Europeia no tabuleiro transatlântico.
Em suma, o debate da IMCO não é mero protocolo parlamentar; é uma manobra de longo alcance na cartografia das influências digitais. A forma como Bruxelas responderá a estes travel bans dirá muito sobre os alicerces da sua autonomia tecnológica e regulatória.






















