Por Marco Severini, enviado a Estrasburgo — Em um movimento que redesenha, peça por peça, o tabuleiro diplomático europeu, o Parlamento Europeu aprovou por ampla maioria uma resolução que expressa sua “inequívoca condenação e indignação” diante da repressão violenta e dos homicídios em massa cometidos pelo regime iraniano contra manifestantes nas últimas semanas.
O texto foi aprovado no hemiciclo de Estrasburgo com 562 votos a favor, 9 contrários e 57 abstenções. A resolução pede ao regime sob comando de Ali Khamenei que “ponha imediatamente fim à violência contra manifestantes pacíficos, suspenda todas as execuções e cesse a matança e a repressão de civis”.
Relatora da resolução, a eurodeputada socialista Lucia Annunziata exigiu responsabilidade e sanções direcionadas: “Todos os responsáveis por esta repressão devem ser responsabilizados, inclusive através de sanções. O apoio da Europa a uma transição democrática no Irã deve ser real, não simbólico”. Annunziata insistiu que é chegada a hora de rotular certos braços armados do regime pelo que realmente representam.
Os eurodeputados reabriram a tensão sobre a possibilidade de designar o Corpo dos Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) como organização terrorista, incluindo suas unidades Basij e a Força Quds. A resolução insta o Conselho da UE a “proceder sem demora” com a inclusão na lista negra desses elementos.
A União Europeia já aplicou sanções contra membros da Guarda Revolucionária, mas, conforme lembrado pelo Parlamento, o reconhecimento jurídico como organização terrorista exige, em muitos casos, uma sentença em tribunal nacional. Paralelamente, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e a Alta Representante para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, confirmaram que trabalham em um novo pacote de sanções para complementar a lista de 230 indivíduos e 40 entidades já punidos na esfera europeia.
O texto parlamentar também assinala um preocupante deslocamento nas táticas de repressão: de medidas de deterrência a atos de “eliminação estratégica”. Hoje a televisão estatal iraniana divulgou um balanço oficial de vítimas — 3.117 mortes — cifra substancialmente inferior às estimativas de organizações independentes, como a Human Rights Activists (HRANA), que contabiliza ao menos 4.902 mortos.
Além das sanções e da lista negra, os eurodeputados exigem que Teerã garanta acesso imediato e sem impedimentos à missão de inquérito das Nações Unidas para investigar possíveis crimes graves segundo o direito internacional. A resolução pede ainda a intensificação do engajamento diplomático de Bruxelas para prover proteção, assistência humanitária e apoio às pessoas sob risco.
Como analista que observa a tectônica de poder na região, considero este voto um movimento deliberado no tabuleiro europeu: não uma escalada intempestiva, mas um reposicionamento calculado para fortalecer os alicerces frágeis da diplomacia ocidental e criar vias legais e políticas para responsabilização. A decisão do Parlamento é um sinal claro de que a Europa pretende transformar indignação em instrumentos geopoliticamente eficazes, mantendo, porém, os limites do direito e da cooperação institucional.
Resta saber como o Conselho da UE e os Estados-membros irão traduzir esta expectativa política em ações jurídicas concretas — um processo que exigirá coordenação, provas admissíveis e, sobretudo, a paciência estratégica de quem joga para garantir estabilidade de longo prazo, não apenas vitórias de ocasião.






















