Por Marco Severini, Espresso Italia — Desde os corredores cerimoniais de Davos até os hemiciclos de Estrasburgo, desenha-se um movimento que pode redesenhar linhas de influência entre Bruxelas e Washington. O Parlamento Europeu tomou hoje (21 de janeiro) a primeira iniciativa concreta contra as pressões comerciais vindas da administração Trump: a suspensão dos trabalhos para a implementação do acordo UE‑EUA sobre tarifas, assinado no verão passado na Escócia. Este gesto protocolar é, na minha leitura, um primeiro lance num tabuleiro em que as peças geopolíticas se movimentam com precisão.
O passo seguinte, já agendado para discussão em 26 de janeiro, é mais decisivo: a possível solicitação formal para ativar o instrumento anti‑coerção — a chamada “bazuca comercial” que Bruxelas reservou para situações em que terceiros exercem coerção econômica grave contra a União. Bernd Lange, presidente da comissão de Comércio Internacional (INTA) e eurodeputado socialista, antecipou que espera que os coordenadores decidem por iniciar o procedimento de investigação desse mecanismo. Lange declarou estar pessoalmente a favor, lembrando que a ferramenta foi concebida exatamente para confrontos desta natureza.
Trata‑se, nas palavras do próprio Parlamento, de responder a ameaças onde um país terceiro usa tarifas como instrumento de coação. Segundo Lange e relatores de vários grupos políticos, a administração Trump está a empregar os dazi de forma coercitiva, justificando assim a suspensão imediata da implementação do pacote negociado com os Estados Unidos.
Se os coordenadores aprovarem o pedido, a Comissão Europeia terá até quatro meses para conduzir uma investigação sobre as alegadas ameaças norte‑americanas — o primeiro estágio de um processo que inclui uma fase de diálogo com Washington e uma avaliação das opções de retaliação. Ao término desta etapa, a Comissão poderá submeter ao Conselho da UE uma proposta de medidas de resposta, que exigirá aprovação por maioria qualificada das capitais.
As medidas previstas no arsenal europeu não são simbólicas: incluem a imposição de novos ou acrescidos direitos aduaneiros, limitação ao comércio de bens e serviços, restrições a investimentos, medidas sobre direitos de propriedade intelectual e redução do acesso de operadores americanos a contratos públicos na União. Em termos estratégicos, seria um movimento que altera temporariamente as regras do jogo comercial entre dois aliados com grande interdependência.
Enquanto isso, Lange sugeriu que passos adicionais e mais imediatos podem ser dados, citando a possibilidade de liberar tarifas punitivas sobre bens americanos avaliados em 92 bilhões de euros — uma lista preparada em julho e suspensa pela concordância de princípios alcançada na Escócia. “A lista existe, os regulamentos estão prontos e podemos torná‑la executiva imediatamente”, afirmou.
Do lado do Partido Popular Europeu, o coordenador Jörgen Warborn adotou tom mais contido: recordou que muitos dos envolvidos, inclusive o próprio Trump, encontram‑se em Davos, o que abre uma janela diplomática para solução. Ainda assim, Warborn não descartou a ativação do instrumento — que, até agora, nunca esteve tão próximo de ser desencadeado.
Em suma, estamos diante de um movimento que combina cálculo diplomático e pressão comercial. Como num tabuleiro de xadrez, Bruxelas parece preparar uma jogada de alcance e dissuasão: não uma escalada por si só, mas um mecanismo para reequilibrar alicerces frágeis da diplomacia transatlântica.





















