Bruxelas — Em um movimento decisivo no tabuleiro regulatório europeu, o Parlamento Europeu deu o aval final ao Pacote Vinho, uma série de medidas destinadas a reforçar a resiliência e a competitividade do setor vitivinícola da União Europeia. A aprovação ocorreu com uma maioria expressiva: 625 votos a favor, 15 contra e 11 abstenções.
O texto aprovado introduz instrumentos financeiros e normativos pensados para responder a um panorama marcado por desafios estruturais — sobraprodução, queda do consumo interno e os impactos cada vez mais evidentes do mudança climática — e, ao mesmo tempo, para abrir novas frentes de oportunidade, sobretudo nos mercados terceiros.
A relatora do dossiê, Esther Herranz García (PPE, Espanha), destaca que “a Europa está a responder concretamente às dificuldades que o setor enfrenta nas diferentes regiões”. Em termos práticos, o pacote prevê um reforço de fundos para promoção e comercialização no exterior, com cofinanciamento de até 60% das despesas elegíveis para ações dirigidas a países terceiros. Os Estados‑membros poderão ainda complementar esse apoio com um acréscimo até 30% para pequenas e médias empresas e até 20% para empresas de maior dimensão.
Entre as medidas administrativas, o Parlamento aprovou normas que aumentam a certeza nas autorizações e simplificam as regras de rotulagem, incluindo disposições mais claras para os chamados vinhos não alcoólicos. Esse ajustamento regulatório visa reduzir a assimetria de informação entre produtores e consumidores e facilitar a circulação de produtos inovadores.
Para o eurodeputado Salvatore De Meo (Forza Italia, PPE) e membro da comissão de Agricultura, o pacote entrega ferramentas úteis para “enfrentar a queda do consumo e a pressão crescente dos mercados internacionais”, proporcionando maior previsibilidade às empresas italianas e europeias.
Do ponto de vista da integração econômica, a eurodeputada Camilla Laureti (Partito Democratico, S&D) recorda que o vinho é o terceiro setor agroalimentar em exportações, com uma produção média de cerca de 157 milhões de hectolitros, o que faz da UE o maior produtor mundial e mantém empregos diretos e indiretos para aproximadamente 2,9 milhões de pessoas. Para Laureti, o pacote oferece “instrumentos para gerir crises, regras de rotulagem mais simples e maior segurança jurídica para autorizações”.
O texto recebeu também o apoio condicionado do grupo dos Verdes. A eurodeputada Cristina Guarda, relatora sombra dos Verdi/ALE, sublinha que o pacote nasce da consciência de uma crise profunda no setor: “Sustentamos um acordo que reforça os instrumentos de gestão de crise — incluindo a possibilidade de suspender novos direitos de plantio em casos de grave desequilíbrio de mercado — e que abre uma perspectiva de longo prazo para a sustentabilidade do setor”.
Outro ponto estratégico é o estímulo ao enoturismo: ações de promoção turística ligadas ao vinho poderão receber cofinanciamento por períodos iniciais de até três anos, renováveis até duas vezes, atingindo um horizonte máximo de nove anos. Entre as iniciativas elegíveis figuram campanhas informativas, eventos, feiras, exposições e estudos de mercado.
À luz desta decisão, a União Europeia procura redesenhar, de maneira calibrada, os alicerces da sua política vitivinícola: não se trata apenas de injetar mais recursos, mas de reorganizar instrumentos para maior flexibilidade, gestão de riscos e projeção estratégica nos mercados externos. É um movimento no tabuleiro que tenta equilibrar proteção do mercado interno, adaptação às transformações climáticas e abertura comercial.
Como analista, observo que o sucesso prático do pacote dependerá da implementação nacional — sobretudo da rapidez com que Estados‑membros traduzirem apoio financeiro em medidas concretas para pequenos produtores — e da capacidade do setor de articular promoção, inovação e sustentabilidade como peças de um mesmo xadrez econômico.






















