Por Marco Severini — Espresso Italia
Bruxelas — Em um movimento que pode ser lido como um lance estratégico no grande tabuleiro das infraestruturas financeiras globais, o Parlamento Europeu devolveu impulso decisivo ao projeto do euro digital. Nesta terça-feira, duas emendas foram aprovadas no relatório anual sobre a atividade da Banca Central Europeia (BCE), com votações que evidenciam uma convergência política robusta: no primeiro voto 420 “sim”, 158 “não” e 64 abstenções; no segundo, 438 “sim”, 158 “não” e 44 abstenções.
Os textos adotados endereçam pedidos explícitos ao Parlamento e ao Conselho da UE para que o processo legislativo do euro digital seja retomado e concluído com celeridade. Um dos emendamentos, de alto teor político, assinala que “em um contexto de acentuada incerteza geopolítica e de excessiva dependência de infraestruturas de pagamento de países terceiros, a introdução de um euro digital, concebido para integrar serviços bancários, em moeda e privados, é essencial para reforçar a soberania monetária da UE”. Trata-se, nas palavras veladas do texto, de um mandato para transformar em lei uma alternativa europeia aos circuitos de pagamento dominantes.
O segundo emendamento enfatiza a dimensão da autonomia estratégica: alerta para o risco de a crescente digitalização dos pagamentos, se deixada exclusivamente nas mãos de atores privados e de terceiros Estados, originar novas formas de exclusão para consumidores e comerciantes. É, nas entrelinhas, um convite institucional a desenhar alternativas europeias a redes como Visa e Mastercard para transações dentro do mercado único.
O voto do Parlamento responde às insistentes solicitações da presidência da BCE, liderada por Christine Lagarde, que, na véspera da votação, reiterou a necessidade de uma infraestrutura de pagamentos “completamente europeia” para evitar dependências externas sobre fornecedores essenciais ao funcionamento da economia.
Pasquale Tridico (M5S/LaSinistra), relator do documento e primeiro signatário de um dos emendamentos, saudou o resultado: “Com a aprovação dos emendamentos bipartidários, tiramos qualquer pretexto que até aqui bloqueou o lançamento do euro digital“. Tridico sublinha um dado técnico mas politicamente eloquente: entre os dez sistemas de pagamento mais usados na Europa, nenhum é europeu — um indicador de fragilidade estratégica que traduz custos indiretos aos cidadãos, em comissões, signoragem e coleta de dados.
Como analista, revejo este episódio como um movimento de redimensionamento das fronteiras invisíveis da soberania: não se trata apenas de tecnologia, mas de controlar os canais por onde circula poder econômico. A decisão do Parlamento configura-se como um peão que avançou de forma decisiva, obrigando outros atores — Conselho, BCE e operadores privados — a reagirem.
As próximas etapas permanecem institucionais e técnicas: desde o detalhamento do modelo de interoperabilidade com bancos privados até a definição da governança e salvaguardas de privacidade. Mas o mais relevante do voto de hoje é político: estabeleceu-se uma maioria clara que transforma o euro digital de tema técnico em prioridade estratégica da UE.
Às autoridades cabe agora transformar essa maioria parlamentar em um desenho institucional robusto — alicerces que resistam à pressão externa e às distorções de mercado —, sob pena de a dependência presente continuar a desenhar, com lentidão mas persistência, a tectônica de poder da era digital.






















