Por Marco Severini — A tectônica de poder atlântica parece deslocar-se. Em poucos dias, o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia enviaram sinais convergentes e assertivos ao governo de Donald Trump, sugerindo que a União está pronta para uma postura menos tolerante perante pressões externas e comportamentos imprevisíveis. Esses movimentos não são mero ruído; são jogadas calculadas num tabuleiro onde cada peça — política, económica e diplomática — precisa ser reposicionada com precisão.
Do ponto de vista parlamentar, a Eurocâmara decidiu suspender os trabalhos de implementação do acordo sobre tarifas comerciais acordado no verão entre Bruxelas e Washington. Em termos claros: se os Estados Unidos querem acesso com tarifas zero ao mercado único, deverão mostrar-se confiáveis — exigência explicitada pelo presidente do Partido Popular Europeu, Manfred Weber. Este gesto marca um rompimento com meses de políticas de contenção e diálogo incondicional, e indica que o apelo à reciprocidade comercial passa a ser condição para cooperação.
Na esfera executiva, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, no Fórum Económico Mundial de Davos, afinou essa mesma nota. Com compostura e sem rupturas acrimoniosas, ela redesenhou o enquadramento euro-atlântico: distanciamento prudente da liderança americana sem ruptura com os cidadãos dos Estados Unidos. A distinção entre América enquanto sociedade e administrações enquanto agentes de poder foi propositalmente enfatizada — gesto diplomático que visa preservar canais úteis enquanto redefine os alicerces da parceria.
Não se trata apenas de retórica. A decisão de convocar um Conselho Europeu extraordinário — formalizado por António Costa para esta quinta-feira à noite — e o encontro de líderes previsto para 12 de fevereiro perto de Bruxelas revelam a consciência de que é preciso coragem estratégica para reconstruir a posição europeia. Há resistências internas, notadamente de governos mais alinhados com a Casa Branca, como o da Hungria, mas a Europa parece empenhada em superar essas fragilidades.
É aqui que entram figuras de peso como Mario Draghi e Enrico Letta. Não apenas como gestores ou operadores partidários, mas como arquitetos de consenso, capazes de traduzir a visão política em coordenação efetiva entre capitais, instituições e mercados. A sua experiência — uma mistura de prudência técnica e autoridade moral — pode ser decisiva para transformar sinais isolados em política coerente, dando substância a uma nova visão europeia.
Em suma, assistimos a duas bofetadas simbólicas a Washington: uma do Parlamento, outra da Comissão. Mais do que um confronto, são movimentos calibrados para afirmar autonomia, reciprocidade e previsibilidade. Como num jogo de xadrez de altíssimo nível, a União Europeia desloca suas peças para evitar ser encurralada por decisões unilaterais e para garantir que os seus interesses estratégicos e económicos permaneçam protegidos. O desafio agora é consolidar essa mudança antes que a partida avance para próximas jogadas.
Num mundo de fronteiras invisíveis e de rápidas recomposições geopolíticas, a Europa parece estar a construir, passo a passo, uma visão que procura harmonizar princípio e eficácia — e nessa arquitetura, o contributo de estadosmen como Draghi e Letta pode transformar uma intenção em estratégia sustentável.






















