De enviado a Estrasburgo — Um mês após o episódio que forçou a presidente Ursula von der Leyen a afastar temporariamente a opção de usar ativos russos congelados e a apostar no endividamento comum, o Parlamento Europeu encurtou prazos e aprovou, por aclamação, a tramitação acelerada da proposta de **empréstimo de 90 bilhões de euros** à Ucrânia, a ser desembolsado em dois anos.
A proposta da Comissão Europeia, apresentada em 14 de janeiro, foi admitida para debate e seguirá agora ao plenário de Fevereiro. Em termos de geopolítica financeira, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: a União Europeia opta por emitir dívida comum nos mercados de capitais, garantida pelo chamado “margem de manobra” (headroom) do orçamento da UE, em vez de avançar com mecanismos mais controversos relacionados a ativos russos.
Do ponto de vista prático, a faísca que impeliu o processo foi o risco de exaurimento de recursos de Kiev. Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional, a Ucrânia corre o risco de ficar sem fundos já a partir do segundo trimestre de 2026 — incapaz de financiar tanto o esforço militar de defesa contra a agressão russa quanto o funcionamento do seu orçamento público.
O Parlamento também aprovou a tramitação urgente da decisão do Conselho para aplicar o procedimento de cooperação reforçada ao empréstimo — um instrumento que permite a 24 Estados membros (excluídas República Checa, Hungria e Eslováquia) concederem conjuntamente o apoio financeiro. Essa etapa será submetida ao voto final do plenário já nesta quarta-feira, 21 de janeiro, às 12h30.
Paralelamente, os eurodeputados decidiram acelerar a apreciação de uma proposta complementar de alteração do Instrumento para a Ucrânia (Ukraine Facility), cujo voto também está previsto para a sessão de fevereiro. É uma arquitetura dupla: um pacote financeiro central via dívida comum e ajustes normativos que refinam os instrumentos já existentes.
O quadro que se desenha não é apenas financeiro, é geopolítico. Ao escolher a via do endividamento comum, a UE redesenha fronteiras invisíveis de responsabilidade coletiva e risco partilhado — um movimento que lembra um lance de xadrez em que se sacrifica flexibilidade orçamental para preservar a célula estratégica de segurança europeia. Esta decisão tentará manter os alicerces frágeis da diplomacia e da estabilidade do flanco oriental.
Resta a incógnita política interna: a opção por deixar de lado, por ora, a utilização direta de ativos russos congelados mostra que, entre aliados, a coesão continua a ser negociada. No plano prático, a concretização do pacote dependerá da convergência técnica sobre garantias, calendário de emissão de dívida e da capacidade dos Estados participantes de sustentar uma cooperação reforçada em que a dissidência é limitada, mas real.
Fonte: Comissão Europeia
Marco Severini — Espresso Italia. Análise sênior sobre tectônica de poder, estabilidade europeia e decisões estratégicas no tabuleiro internacional.






















