Giorgia Meloni e Friedrich Merz voltaram-se hoje para um movimento estratégico que visa redesenhar, nas bordas, a arquitetura prática da União Europeia. No encontro bilateral realizado em 23 de janeiro, na aristocrática Villa Doria Pamphilj, em Roma, os dois líderes assinaram três documentos com implicações concretas para a política econômica, de segurança e institucional do bloco.
Os acordos rubricados são: (1) um protocolo de cooperação em temas de economia, cultura e migração; (2) um pacto de colaboração em matéria de segurança e defesa; e (3) um documento informal que propõe a simplificação da burocracia europeia. A combinação evidencia um duplo propósito: alinhar mercados e remover entraves internos para elevar a competitividade europeia, ao mesmo tempo em que se consolida uma linha comum em matéria de segurança.
Em discurso à imprensa, o chanceler alemão deixou clara a ambição: “Queremos desmantelar a burocracia na Europa para sermos mais competitivos” — expressão direta que marca o tom prático do encontro e que deverá constar como prioridade na agenda conjunta para 2026. A presidente do Conselho, por sua vez, reafirmou a necessidade de “um passo de mudança na competitividade” da União, alinhando-se com prioridades já definidas por agendas técnicas anteriores.
Apesar das imagens de crescente afinidade — fotografias do acolhimento de Meloni a Merz circularam amplamente — ambos evitam assumir publicamente o rótulo de “motores” da União. Ainda assim, a convergência é palpável: Merz admitiu que “a convergência é fortíssima”, sinalizando que as afinidades políticas e programáticas entre Roma e Berlim ultrapassam o plano retórico.
Um episódio recente ilustra esse alinhamento: em dezembro, na discussão sobre o acordo UE‑Mercosur, a Itália optou por apoiar o tratado após meses de reflexão, numa decisão que agradou a Berlim — e pela qual Merz agradeceu explicitamente. Ele reiterou a necessidade de ver o acordo efetivado, mesmo após a cautela manifestada pelo Parlamento Europeu. Meloni, cauta, lembrou que o compromisso italiano permanece e que o pacto “pode e deve avançar”, ainda que com as ressalvas políticas necessárias.
Questionada sobre a possibilidade de a Itália substituir a França como parceiro privilegiado da Alemanha, Meloni foi lacônica: “Não me interessa substituir ninguém; me interessa que a Itália jogue seu papel no cenário internacional.” A líder italiana não poupou uma resposta velada ao presidente francês, ao advertir que “não vivemos uma época para infantilismos na leitura da política externa” — frase que insinua críticas à forma como abordagens públicas e simbólicas podem desviar a atenção de interesses estratégicos.
Por último, na pauta geopolítica, paira a preocupação com as atitudes da administração americana. Segundo interlocutores presentes e no tom público dos líderes, as recentes declarações e pressões vindas de Washington requerem moderação e coordenação europeia: Berlim e Roma têm sido, nas últimas semanas, entre as capitais mais conciliatórias com os Estados Unidos, numa tônica que busca preservar laços transatlânticos sem sacrificar autonomia estratégica.
Do ponto de vista de análise estratégica, o encontro de Villa Doria Pamphilj configura um movimento de alto nível no tabuleiro europeu: não se trata apenas de afinidade pessoal entre dois dirigentes, mas de um ajuste dos alicerces — por ora discretos — que podem redefinir linhas práticas de ação no mercado interno, na defesa comum e na governança da União Europeia. Se o terceiro documento sobre simplificação burocrática traduzir-se em propostas legislativas eficazes, teremos assistido a um pequeno, porém decisivo, redesenho das fronteiras invisíveis que regulam a ação quotidiana das instituições comunitárias.
Marco Severini, Espresso Italia






















