Por Marco Severini — Bruxelas. A Lombardia confirmou seu papel de liderança no panorama industrial químico europeu ao concluir, em Rotterdam, sua presidência do European Chemical Regions Network (ECRN), cargo exercido desde 2024 sob a responsabilidade do assessor regional Guido Guidesi. O balanço apresentado durante a assembleia final evidencia um movimento tático bem-sucedido, capaz de redesenhar — sem ruído — parte do mapa de influências setoriais no continente.
Segundo nota oficial da Região, a gestão lombarda permitiu a expansão da rede de 10 para 21 membros, transformando o ECRN em um interlocutor direto da Comissão Europeia nos espaços de discussão voltados ao relançamento do setor químico. Essa ampliação não foi meramente numérica: traduziu-se em maior capacidade de advocacy, coordenação entre distritos e acesso a fundos comunitários.
Na prática, a presidência lombarda viabilizou a participação do ECRN em seis projetos europeus que geraram aproximadamente €19 milhões em financiamentos. Para além dos montantes, as iniciativas buscaram facilitar as conexões entre diferentes polos industriais, ampliando a capacidade regional de “fazer sistema” e protegendo os alicerces produtivos que sustentam cadeias de valor estratégicas.
O encerramento do mandato, oficializado em Rotterdam (Países Baixos), marcou a passagem de comando para a Catalunha. Ainda assim, a Lombardia permanece em posição de destaque ao assumir a vice-presidência da associação, com delegação específica à Critical Chemicals Alliance, o grupo de trabalho instituído pela Comissão Europeia para operacionalizar o Plano de Ação Europeu para a indústria química. Trata-se da única região com representação formal nesse fórum, o que confere à Lombardia papel singular na defesa de competitividade, investimentos e capacidade produtiva tanto regional quanto europeia.
Durante o ato de transição, o assessor Guidesi reafirmou uma premissa que orientou a estratégia lombarda: “sem a química, a economia europeia não tem futuro”. Em termos pragmáticos, a declaração sublinha uma visão de Estado e de mercado: cabe às autoridades regionais e europeias simultaneamente modernizar o setor — promovendo eficiência e sustentabilidade — e proteger sua presença industrial para manter a competitividade das empresas.
Do ponto de vista geopolítico e econômico, esta sequência de movimentos pode ser lida como um avanço calculado no tabuleiro da indústria europeia. A expansão do ECRN e a inserção formal no núcleo de formulação do Plano de Ação demonstram que atores subnacionais bem articulados conseguem exercer influência estruturante sobre políticas comunitárias. Em outras palavras: a Lombardia jogou uma partida de xadrez institucional onde ganhou domínio posicional e garantiu um peão estratégico — a representação na Critical Chemicals Alliance — que poderá decidir partidas futuras.
A continuidade do engajamento lombardo aponta para uma etapa de monitoramento e implementação: consolidar os projetos financiados, assegurar que os investimentos se convertam em resiliência industrial e acompanhar a tradução das diretrizes europeias em benefícios concretos para os distritos produtivos. O movimento ilustra uma tectônica de poder em que regiões proativas moldam políticas que, até então, eram majoritariamente definidas ao nível central.
Em suma, a presidenza lombarda do ECRN fecha com um saldo de expansão institucional, recursos captados e presença estratégica nos corredores de decisão europeus — um resultado que desenha novos contornos para a governança da indústria química no continente.






















