Bruxelas — Na recente Conferência de Segurança de Munique, o convite dos Estados Unidos para construir um “novo ordenamento mundial” conjunto encontrou resistência firme entre os responsáveis europeus. O apelo feito pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, para que a Europa se alinhasse à visão política e estratégica promovida por Washington foi recebido com uma resposta clara: a União Europeia não vai operar como um satélite automático das políticas internas dos Estados Unidos.
Rubio, em discurso incisivo, evocou laços históricos — descrevendo a América como “uma filha da Europa” — e condicionou uma cooperação estreita à disposição europeia de seguir o caminho indicado pela administração americana. Nas palavras do secretário, “queremos uma Europa forte e pedimos que nos acompanhemos no percurso traçado pelo presidente Trump e pelos EUA”. A oferta americana, apresentada por alguns como um gesto de parceria, soou para muitos como um aut-aut estratégico.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, procurou minimizar o tom confrontacional: disse-se “muito tranquilizada” pelo discurso de Rubio e recordou que os laços transatlânticos são valiosos, mas sublinhou a necessidade de uma Europa igualmente soberana. “Devemos construir uma Europa independente, não uma Europa que se apoia noutro”, declarou, traçando uma linha clara entre aliança e subordinação.
A réplica mais direta veio da chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas. Com ironia certeira, Kallas contrapôs críticas americanas sobre liberdade de imprensa lembrando as posições de cada país nos índices internacionais — uma observação que cortou o pano de fundo retórico do apelo de Rubio. “Vindo de um país que ocupa o 58.º lugar no índice mundial da liberdade de imprensa, receber críticas sobre esse tema é… interessante”, afirmou. Kallas rejeitou também a narrativa de uma Europa decadente: “A Europa ‘woke’ e decadente não está a ser apagada; as pessoas ainda querem juntar-se ao nosso clube”, observou, citando até sondagens sobre interesse canadense em aderir à UE.
Figuras centrais de Berlim e Paris foram ainda mais enfáticas. O líder conservador alemão Friedrich Merz — representando uma corrente que defende firmeza estratégica e autonomia industrial — advertiu contra qualquer configuração que transforme a União numa extensão automática de políticas externas americanas. Em tom semelhante, o presidente francês Emmanuel Macron realçou a necessidade de a Europa traçar o seu próprio caminho geopolítico: nem alinhamento acrítico nem isolamento, mas uma autonomia estratégica que permita ao bloco negociar com Washington, Pequim e Moscou a partir de uma posição de força.
O cenário desenhado em Munique é, portanto, menos o de um rompimento e mais o de um redesenho das relações: o transatlântico passa por uma fase de recalibração. Há uma aceitação tácita de que os laços militares, económicos e culturais são profundos e necessários; mas há também a convicção crescente, entre os europeus, de que a “tectónica de poder” global exige instrumentos próprios de decisão e defesa.
Do ponto de vista estratégico, a mensagem europeia pode ser lida como um movimento posicional num tabuleiro complexo. Não se trata de recusar a aliança, mas de recusar que a aliança dite todos os lances. A UE procura manter portas abertas a uma cooperação robusta com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que trabalha para consolidar capacidades de defesa, autonomia tecnológica e uma diplomacia que não dependa exclusivamente do eixo transatlântico.
As implicações práticas são nítidas: maior pressão por investimentos em defesa europeia, impulso a cadeias industriais resilientes, esforços políticos para uma diplomacia econômica independente e um diálogo mais assertivo com parceiros como a China. Em termos de estabilidade global, a atitude europeia pretende evitar alicerces frágeis que possam ser abalados por convulsões políticas internas noutro lado do Atlântico.
Como um jogador experiente num tabuleiro de xadrez, a União Europeia joga agora por uma posição que preserve alianças, amplie opções e minimize riscos de dependência estratégica. A Conferência de Munique serviu para tornar explícito aquilo que muitos já sabiam: o relacionamento transatlântico seguirá, mas em termos renegociados — uma nova arquitectura de cooperação, sim; um novo domínio unilateral, não.
Marco Severini — Espresso Italia






















