Por Marco Severini — Em Davos, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, proferiu um diagnóstico seco e estratégico sobre o estado das relações transatlânticas: «Chegamos a um ponto em que é preciso olhar para um plano B, ou mesmo para vários planos B». A mensagem, oferecida em tom diplomático mas sem meias-palavras, desenha um redesenho silencioso do tabuleiro de poder global.
Lagarde observou que o mundo mudou e que, embora não se trate necessariamente de uma ruptura completa com o passado, as antigas linhas de interdependência tornaram-se potenciais vulnerabilidades. Do ponto de vista econômico, afirmou, a União Europeia permanece profundamente interdependente com parceiros externos — uma realidade que, nas mãos de decisões unilaterais, pode transformar-se em fraqueza.
Com a frieza estratégica de quem conhece a arquitetura das alianças, a presidente da BCE elogiou a ação da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacando os recentes acordos comerciais com o Mercosul e com o México como instrumentos práticos para criar alternativas e reduzir exposições indesejadas. Na linguagem do diplomata, tratou-se de edificar alicerces novos onde os antigos podiam rachar.
Lagarde foi clara ao analisar o papel desempenhado por Donald Trump na cena internacional. Sem recorrer a espetáculo, recomendou que as conclusões políticas sejam tiradas — e que se preparem respostas estratégicas. A presidente da BCE convergiu com a abordagem de von der Leyen e com as declarações de líderes como o francês Emmanuel Macron, que expressaram reservas quanto ao comportamento do ocupante da Casa Branca. Ainda assim, Lagarde enfatizou uma distinção crucível: «Tenho grande confiança e grande afeto pelo povo americano». A crítica recai sobre a figura presidencial, não sobre a sociedade.
Na metáfora do tabuleiro de xadrez, tratou-se de reconhecer um movimento adversário que altera posições e exige novas jogadas: não se trata de abandonar o jogo, mas de preparar jogadas alternativas para proteger peças essenciais. A urgência, segundo Lagarde, não é apenas retórica; é prática. «A confiança foi erodida», admitiu — talvez em parte, talvez em muito — e tal erosão não pode ser ignorada.
O apelo final foi pela reconstrução das pontes comprometidas: «Nosso dever, no espírito do diálogo, é reconstruir aquilo que tenha sido afetado». Em termos de cartografia diplomática, indica-se um redesenho das rotas de dependência e um mapeamento de corredores alternativos para o comércio e a cooperação.
O pronunciamento da presidente do BCE ocorre num contexto em que chefes de Estado e de governo europeus já vinham formalizando respostas coordenadas às pressões externas. Em suma, Davos tornou-se palco de uma tomada de consciência estratégica: a tectônica de poder mudou, e a União Europeia move-se com cautela para fortificar sua autonomia e preservar a estabilidade das relações internacionais.
Como analista que observa o tabuleiro global, considero a declaração de Lagarde um movimento decisivo — não dramático, mas cuidadoso, à maneira de um arquiteto que alinha colunas antes de erguer um novo frontispício. A diplomacia agora precisa traduzir essas linhas estratégicas em ações concretas, preservando a longínqua esperança enunciada pela própria Lagarde: que, a prazo, os valores profundos reencontrem a sua expressão nas relações entre povos e Estados.






















