Bruxelas — A reação da Comissão Europeia à escalada militar no Golfo suscitou uma forte reação política no Parlamento Europeu. Do ponto de vista do grupo La Sinistra, a postura da presidência da Comissão representa um erro estratégico que fragiliza os alicerces do direito internacional.
Os recentes ataques que, em 28 de fevereiro, atingiram instalações no Irã e que, segundo relatos, resultaram na morte do líder supremo iraniano e de altos comandantes militares, desencadearam contra-ataques contra Israel e tensões em toda a região. Em meio a essa sequência de eventos, o eurodeputado belga Marc Botenga, porta-voz de La Sinistra, dirigiu críticas duras à presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, e à alta representante, Kaja Kallas, acusando-as de uma inaceitável omissão: condenar as reações iranianas, mas não os ataques iniciais de Estados Unidos e Israel.
“O ataque israelo-americano ao Irã viola de modo flagrante o direito internacional e a Carta das Nações Unidas”, declarou Botenga. “E, no entanto, de forma escandalosa, a presidente da Comissão von der Leyen e a alta representante Kaja Kallas recusam-se a condená-lo”.
Para o grupo da esquerda, essa abordagem configura uma política de dois pesos e duas medidas que corrói a credibilidade da União Europeia. “Denunciam com justeza as violações russas na Ucrânia, mas justificam as ações dos Estados Unidos e de Israel“, argumentou o eurodeputado. Na visão de Botenga e de seus colegas, essa assimetria abre caminho para uma ordem internacional onde poder e violência retornam a ditar a lei, em detrimento do multilateralismo e das normas jurídicas.
O diagnóstico traçado por La Sinistra é duro e de natureza estratégica: “A incapacidade da Europa de defender os princípios fundamentais do direito internacional legitima um sistema mundial baseado na força, pondo em risco vidas em todo o planeta”. Assim, segundo o grupo, as declarações recentes das mais altas instâncias da União Europeia, quando se recusam a condenar os bombardeios ao Irã, representam um abandono destes princípios — uma mudança que torna o tabuleiro geopolítico mais volátil e perigoso.
Botenga ainda aprofundou a crítica histórica e política: “Na região, as intervenções militares ocidentais trouxeram destruição, não democracia” — um comentário que evoca, em termos geopolíticos, a ideia de tectônica de poder e redesenho de fronteiras invisíveis. O deputado também qualificou Benjamin Netanyahu como um “criminoso de guerra” sujeito, segundo ele, a mandado de prisão internacional, lembrando que figuras desse calibre complicam a posição política da UE perante a opinião pública e atores internacionais.
Do ponto de vista institucional, a disputa revela um dilema estratégico para a União: afirmar valores universais e a primazia do direito ou ceder a considerações de alinhamento geopolítico e interesses estratégicos. Em linguagem de xadrez, é como se a Comissão tivesse optado por um movimento defensivo que protege alianças imediatas, mas expõe o rei — a credibilidade europeia — a um xeque de longo prazo.
Em suma, a crítica de La Sinistra não é mero ruído parlamentar; é um alerta diplomático sobre os custos de um posicionamento seletivo. Se a Europa deseja conservar autoridade moral e influência como ator global, terá de decidir se preserva princípios ou se adapta sua conduta aos imperativos da Realpolitik. O tempo e os movimentos no tabuleiro regional dirão se essa escolha fortalecerá ou afundará os frágeis alicerces da diplomacia multilateral.






















