Bruxelas — Com os olhos do mundo voltados para Gaza, Israel executa um movimento cuidadoso e sistemático que, na linguagem da geopolítica, equivale a um avanço no tabuleiro: uma anexação silenciosa e crescente da Cisjordânia. Na véspera de uma reunião decisiva na Casa Branca entre Benjamin Netanyahu e Donald Trump, o gabinete de segurança de Tel Aviv aprovou um pacote de medidas que facilita a transferência de terras palestinas para colonos e amplia a margem de atuação das forças armadas israelenses nos territórios administrados pela Autoridade Nacional Palestina.
Os dados do OCHA-OPT, o escritório de assuntos humanitários da ONU para os territórios ocupados, desenham um cenário sombrio: desde 7 de outubro de 2023, confrontos dos ocupantes e ações de colonos na Cisjordânia deixaram pelo menos 1.113 mortos, entre eles 230 menores, e mais de 21 mil detidos. Paralelamente, a expansão dos assentamentos acelerou: somente durante as festas natalinas Tel Aviv aprovou 19 novas colônias, elevando para 69 o número de aprovações nos últimos três anos. Como disse o ministro das Finanças, o influente Bezalel Smotrich: “No terreno, estamos bloqueando a criação de um Estado terrorista palestino”.
As medidas anunciadas incluem a revogação de uma proibição de venda direta de terras na Cisjordânia vigente há uma década e a desclassificação dos registos cadastrais locais. Ao tornar públicas as identidades dos proprietários palestinos, o novo quadro facilita pressões, coerção e operações de compra forçada por parte de colonos e empresas imobiliárias israelenses. Além disso, o gabinete autorizou as IDF a realizar operações de controle e demolições nas zonas A e B da Cisjordânia — áreas formalmente sob administração da Autoridade Nacional Palestina.
Esta conjunção de medidas reforça uma aliança tácita entre colonos e instrumentos do Estado, um padrão que vem erodindo os alicerces dos Acordos de Oslo e minando de fato a hipótese de um Estado palestino independente. Em palavras que sintetizam a preocupação humanitária e legal, Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA, declarou: “É uma receita para maior controle, desespero e violência”. Ele alertou que tais ações constituem “um novo golpe ao Direito Internacional, criando precedentes perigosos com repercussões globais”.
Do lado europeu, a reação foi firme. Em nota conjunta, a alta representante da UE para os Assuntos Exteriores, Kaja Kallas, a comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Suica, e a comissária para Gestão de Crises, Hadja Lahbib, instaram as partes a evitar medidas unilaterais que acirrem tensões e comprometam a possibilidade de uma solução de dois Estados, classificando as ações como “contraproducentes e incompatíveis com o Direito Internacional”.
Em termos de estratégia, trata-se de um movimento multifacetado: ao alterar regras formais sobre propriedade e ao autorizar a presença militar em áreas administradas pelos palestinos, Tel Aviv redesenha fronteiras invisíveis e consolida controles que, com o tempo, traduzem-se em soberania prática. No vocabulário do xadrez diplomático, não é apenas uma jogada — é um alinhamento de peças que reduz opções de contra-jogo para a contraparte palestina e pressiona atores externos a recalibrar suas respostas.
O pano de fundo desta dinâmica é político: se as críticas de Bruxelas e das Nações Unidas soam como apelos jurídicos e morais, no terreno a lógica é outra. A única figura com poder claro de interromper ou frear o impulso de Netanyahu é o presidente dos Estados Unidos. Por isso a reunião de 11 de fevereiro na Casa Branca assume caráter decisivo: será um teste sobre até que ponto o apoio americano se traduzirá em limites reais às políticas que transformam a Cisjordânia em um espaço de domínio progressivo israelense.
Enquanto isso, para observadores e diplomatas, permanece o alerta: medidas unilaterais que alteram o status quo e as bases legais de propriedade são movimentos que reconfiguram a tectônica de poder na região — e deixam marcas duradouras no mapa político do Oriente Médio.






















