Bruxelas — O governo da Islândia está avaliando a convocação de um referendo para reabrir as negociações de adesão com a União Europeia (UE). Segundo fontes próximas ao processo contactadas pelo Politico, a consulta popular — inicialmente prevista para 2027 — pode ser antecipada para agosto deste ano, num movimento que traduz a crescente centralidade do Ártico na tectônica de poder europeia.
O gatilho que acelerou a iniciativa tem nome próprio: Donald Trump. As políticas tarifárias anunciadas pela administração estadunidense — incluindo tarifas de 15% que afetaram produtos islandeses — e, sobretudo, as ambições manifestas em relação à Groenlândia reacenderam um debate que a Islândia julgava encerrado há uma década. Em 2009, Reykjavik havia iniciado um processo formal de adesão; contudo, com a recuperação económica do país mais veloz do que a da UE, as negociações foram congeladas em 2013 e suspensas definitivamente em 2015.
Hoje, no entanto, argumentos estritamente económicos parecem ceder espaço a preocupações de segurança: a Islândia, com cerca de 400 mil habitantes, não possui um exército nacional — é, de fato, o único membro da NATO nessa condição — e apoia-se integralmente nas garantias proporcionadas pela Aliança Atlântica e por um acordo bilateral de defesa com os EUA datado de 1951. Como ressalta o cientista político Eiríkur Bergmann, a possibilidade de um parcial desengajamento norte-americano da NATO alimentou entre os islandeses a sensação de que as garantias tradicionais são menos confiáveis, levando parcela significativa da população a considerar um maior alinhamento com a UE. Um levantamento de abril apontou que 44% dos islandeses hoje se declaram favoráveis à adesão.
O fator Groenlândia acrescenta uma camada adicional de incerteza: preocupações públicas de que, ao deslocar o foco para a enorme ilha no Atlântico Norte, Washington poderia, em algum cenário, mirar também a Islândia. Essas apreensões foram exacerbadas por declarações do novo embaixador dos EUA em Reykjavik, Billy Long, que numa observação em tom de brincadeira sugeriu a hipótese de a Islândia tornar‑se o 52º estado americano — comentário que, embora jocoso, reverberou num contexto já marcado por inquietações estratégicas.
Paralelamente, foram numerosos nos últimos meses os sinais de reaproximação entre Reykjavik e Bruxelas. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, encontrou‑se com a chefia do governo islandês por diversas vezes ao longo dos últimos oito meses — encontros ocorridos em julho de 2025 em Reykjavik, em setembro durante o Conselho Nórdico em Estocolmo e novamente em janeiro deste ano. Essas visitas traduzem um interesse europeu em reforçar vínculos com um parceiro geoestratégicamente situado nas rotas do Ártico.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento que redesenha fronteiras invisíveis: a Islândia pondera hoje um passo que combina soberania econômica com segurança coletiva, numa partida cujo desenlace poderá influenciar o equilíbrio do Atlântico Norte. Em termos de diplomacia prática, a antecipação do referendo para agosto — se confirmada — constitui uma jogada decisiva no tabuleiro do Ártico, com implicações para a arquitetura de segurança europeia e para as relações transatlânticas.
O processo ainda está em fase de formulação e depende de decisões políticas internas e da calendarização oficial do governo. Porém, a conjunção de pressão externa, percepções de insegurança e uma maior atenção da UE tornam plausível que Reykjavik busque, em breve, submeter a questão à soberania popular.
Marco Severini — Espresso Italia






















