Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma sutil, as linhas do poder econômico no continente, os dados preliminares do Eurostat apontam que a inflação na zona do euro desacelerou para 1,7% em janeiro, abaixo dos 2,0% registrados em dezembro. Trata‑se de um passo importante no tabuleiro macroeconômico europeu: não um xeque‑mate, mas um movimento que alivia a pressão sobre políticas monetárias e orçamentos nacionais.
Ao dissecar as componentes, nota‑se que os serviços permanecem como a categoria de maior pressão, com taxa anual estimada em 3,2% (ante 3,4% em dezembro). Seguem‑se alimentos, álcool e tabaco com 2,7% (antes 2,5%), bens industriais não energéticos a 0,4% (0,3% em dezembro) e a componente energia, que contraiu fortemente, em -4,1% (era -1,9%).
O retrato por países revela heterogeneidade estratégica: as maiores taxas projetadas são a da Eslováquia (4,2%), Croácia (3,6%) e Lituânia (2,8%), enquanto o polo oposto apresenta França com apenas 0,4%, Finlândia e Itália estimadas em 1,0% e Bélgica em 1,4%. Esses contrastes representam alicerces frágeis da diplomacia econômica — governos com inflação mais alta enfrentam diferentes pressões eleitorais e de política monetária em comparação com aqueles em terreno mais calmo.
Complementando o quadro de preços, o Eurostat também divulgou dados sobre preços à produção industrial. Em dezembro, na comparação mensal com novembro de 2025, os preços industriais caíram 0,3% na zona do euro e 0,4% na União Europeia. Em novembro, por sua vez, havia ocorrido uma subida (0,7% na zona do euro e 0,8% na UE). No confronto anual, dezembro de 2025 apresentou uma queda de 2,1% na zona do euro e de 1,9% na UE frente a dezembro de 2024.
Na decomposição setorial mensal, a indústria na zona do euro registrou, em dezembro, aumentos de 0,3% nos bens intermediários e de 0,2% nos bens de consumo duráveis, ao passo que a energia recuou 1,2%. Bens de capital caíram 0,1% e bens de consumo não duráveis 0,2%. Excluindo energia, o índice industrial total avançou modestamente 0,1%. A União Europeia apresentou padrão semelhante: crescimento para bens intermediários (+0,3%) e bens de consumo duráveis (+0,2%) e queda expressiva em energia (-1,3%).
As maiores reduções mensais nos preços à produção industrial foram observadas na Estônia (-3,0%), Irlanda (-2,8%) e Dinamarca (-1,9%). Entre as elevações mais sensíveis, destacam‑se Bulgária (+1,4%) e Portugal (+0,5%), com aumentos mais moderados em países como Bélgica e Romênia. Esse mosaico nacional desenha movimentos táticos distintos: alguns mercados industriais desaceleram a oligarquia dos custos, outros ainda suportam incrementos setoriais.
Em termos médios anuais, o Eurostat reporta que os preços à produção industrial em 2025 subiram 0,3% na zona do euro e 0,5% na UE, quando comparados a 2024. Em suma, o início de 2026 abre com um cenário de inflação mais contido e pressões industriais em arrefecimento — um movimento que oferece margem de manobra para bancos centrais, mas que exige vigilância: a tectônica de poder entre setores e países continua suscetível a choques energéticos e logísticos.
Do ponto de vista estratégico, essa fase exige decisões calibradas: reduzir tensões sem precipitar estímulos excessivos, preservar a estabilidade dos mercados e assegurar que o alívio inflacionário não oculte fragilidades estruturais. No tabuleiro da política econômica europeia, cada peça — serviço, energia, indústria — mantém seu papel decisivo na configuração dos próximos lances.






















