Bruxelas — Em um cenário onde a demografia europeia redesenha peças no tabuleiro do poder público, a inteligência artificial surge como ferramenta decisiva, porém insuficiente sem a mediação humana. Esse foi o diagnóstico apresentado pelo THCS (Transforming Health and Care Systems Partnership) durante o evento demonstrativo da Agência Executiva Europeia para a Saúde e o Digital, HaDEA, realizado em 19 de janeiro em Bruxelas.
Na ocasião, que reuniu cerca de 500 participantes presencialmente e 150 on-line, com 26 oradores e 14 estandes de projeto, o THCS ressaltou que a introdução de IA nos sistemas de saúde não pode ser tratada como um mero upgrade tecnológico: trata-se de um movimento estratégico que exige redesenho institucional e governança atenta aos determinantes sociais do bem-estar. “A força de HaDEA reside nelas sinergias entre os programas de financiamento da UE. Ligando saúde, segurança alimentar, digital, indústria e espaço, melhoramos a competitividade e a preparação da Europa”, afirmou a diretora de HaDEA, Marina Zanchi.
Para o THCS, a transformação dos sistemas de saúde e assistência deve ser explicitamente centrada nas pessoas. Se os sistemas passarem a priorizar apenas indicadores clínicos — algoritmos alimentados exclusivamente por dados biomédicos — existir o risco de negligenciar fatores determinantes do estado de saúde, como a solidão, o isolamento social e o acesso limitado a serviços comunitários. Estes elementos, frequentemente invisíveis às bases de dados convencionais, compõem os alicerces frágeis da diplomacia social necessária para políticas de saúde eficazes.
Na prática, a IA já é aplicada em diagnóstico por imagem, detecção e classificação de tumores, estratificação de risco e na gestão operacional dos sistemas de saúde. Contudo, segundo o consórcio, sua adoção deve caminhar acompanhada de reformas institucionais — formação de profissionais, normas de avaliação e mecanismos de responsabilização — que preservem o contato humano e a qualidade do cuidado.
O papel do THCS no ecossistema europeu traduz-se também em instrumentos concretos de financiamento: por meio de seus Bandi Congiunti Transnazionali — editais competitivos de investigação e inovação na ordem de cerca de 30 milhões de euros por ano — o consórcio apoia projetos capazes de transformar serviços e práticas. Nos primeiros três editais, o THCS financiou mais de 60 projetos, dos quais uma parcela relevante foca em inovação digital e aplicações de IA para a saúde.
Da perspectiva estratégica, cabe salientar três vetores imprescindíveis para que a tecnologia produza impacto positivo e estável:
- Integração de determinantes sociais nos modelos preditivos, evitando vieses que reduzam a pessoa a um conjunto de sinais biométricos;
- Fortalecimento da governança de dados, com padrões europeus que conciliem interoperabilidade e proteção de direitos;
- Capacitação contínua da força de trabalho em saúde, preservando a relação clínico-paciente como núcleo do sistema.
Como analista, vejo nesse debate um movimento de tectônica de poder: a arquitetura regulatória que for construída agora definirá quem controla o valor extraído dos dados e como a assistência será entregue. Em termos de estratégia, é como preparar uma abertura de xadrez em que cada movimento tecnológico deve ser calculado para não expor o rei — aqui, o cidadão — a riscos evitáveis.
O apelo do THCS ao colocar o ser humano no centro não é apenas ético; é pragmático. Sistemas que ignoram contexto social produzem diagnósticos e políticas incapazes de lidar com as assimetrias reais entre comunidades. A integração inteligente da IA, portanto, deve ser pensada como um reforço da inteligência do sistema, não como seu substituto.
O desafio europeu é traduzir essas diretrizes em práticas replicáveis em múltiplos Estados-membros, evitando soluções fragmentadas que só reafirmem as divides regionais. É preciso, como sempre nos jogos de influência, planejar movimentos de médio prazo: normas claras, financiamento coordenado e um compromisso contínuo com a dignidade do cuidado.






















