Por Marco Severini — Em Bruxelas, na sessão de 22 de janeiro, a liderança da União Europeia demonstrou, com pragmatismo estratégico, que a coordenação entre Estados-membros permanece um dos alicerces mais resilientes da arquitetura internacional contemporânea. Convocado com caráter de urgência pelo presidente do Conselho, António Costa, o encontro teve início às 19h30 e prolongou-se até a meia-noite, deixando à imprensa a síntese feita por Costa e pela presidente da Comissão, Ursula von der Leyen.
Antes de entrar na agenda geopolítica que catalisou a reunião — a crise suscitada pelas ameaças do presidente dos Estados Unidos relativamente à Groenlândia e às potenciais tarifas contra países europeus — o presidente Costa fez um gesto institucional de unidade: transmitiu condolências ao primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, e presidiu a um minuto de silêncio pelas vítimas dos recentes acidentes ferroviários na Espanha.
No resumo público, von der Leyen desenhou quatro elementos que orientaram a resposta europeia: solidariedade inequívoca com a Groenlândia e o Reino da Dinamarca; apoio firme aos seis Estados‑membros ameaçados por medidas tarifárias; diálogo ativo com os Estados Unidos a múltiplos níveis, conduzido com firmeza mas evitando a escalada; e preparação com contra‑medidas comerciais e instrumentos não tarifários — inclusive a disponibilidade do chamado anti‑coerção, o “bazooka”, caso fosse necessário.
Em termos estratégicos, foi sublinhada a necessidade de operar com quatro princípios cardeais: fermeza, abertura, preparação e unidade. Von der Leyen deixou claro que a abordagem coletiva adotada mostrou‑se eficaz e deverá ser preservada no futuro próximo.
António Costa, por sua vez, enfatizou que o apoio ao Reino da Dinamarca e à Groenlândia é total, lembrando que apenas esses atores têm legitimidade para decidir sobre assuntos que lhes digam respeito, uma reafirmação do compromisso europeu com o direito internacional, a integridade territorial e a soberania nacional.
Depois do encontro, ficou evidente que a retratação parcial do presidente americano reduziu momentaneamente a tensão — um movimento no tabuleiro geopolítico provocado por intervenções de responsáveis da OTAN e por apelos de líderes europeus, incluindo o primeiro‑ministro holandês Mark Rutte. Ainda assim, como advertiu Emmanuel Macron, os riscos persistem: a União deve manter vigilância elevada e estar pronta a mobilizar todos os instrumentos disponíveis.
O vertente debate também tocou, de forma tangencial e com caráter precautório, questões comerciais mais amplas, incluindo a relação com o Mercosul, sinalizando que a tectônica das relações comerciais e de segurança está cada vez mais interligada — um redesenho de fronteiras invisíveis entre política externa e política comercial.
Esta reunião de emergência mostrou que a União Europeia, enquanto coletivo estratégico, sabe articular resistência e diálogo simultaneamente. Como em um tabuleiro de xadrez de alto nível, as peças foram movidas para proteger posições, preservar alianças e evitar que um lance precipitasse uma sequência de consequências indesejadas. A lição é clara: a solidez da coordenação europeia continuará a ser testada, mas também continua a ser o instrumento mais eficaz para gerir crises que atravessam as esferas diplomáticas, comerciais e de segurança.






















