Bruxelas — O comércio de petróleo russo não se extinguiu; ao contrário, encontrou rotas alternativas que inquietam os corredores da União Europeia. Nos últimos anos, parceiros de longa data como a Geórgia e atores emergentes como a Índia intensificaram aquisições de crude russo, um movimento que provoca mal-estar no Parlamento Europeu e embaraço na Comissão Europeia.
O desconforto transpartidário é notório: populares (PPE), socialistas (S&D), liberais (RE) e conservadores (ECR) assinaram uma interrogação conjunta ao executivo comunitário, condenando a importação de óleo russo por um país candidato à adesão à UE. A raiz do problema não é jornalística; foi documentada por dados oficiais. Segundo o departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas (COMTRADE), desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia a Geórgia multiplicou por mais de dez vezes o valor das compras de petróleo russo: de US$ 474 mil em 2022 para US$ 3,6 milhões em 2023 e US$ 5,8 milhões em 2024.
Esses números chocam porque colidem com o pacote de medidas que restringiu, desde maio de 2022, a aquisição de crude russo no espaço europeu. A leitura estratégica é clara: enquanto a arquitetura formal das sanções tentou criar um cordão sanitário energético, fluxos comerciais e rotas alternativas redesenharam fronteiras invisíveis, permitindo que matéria-prima russa siga circulando.
O Parlamento exige respostas e sanções contra a Geórgia. Em resposta, Maria Luís Albuquerque, comissária responsável pelos Serviços Financeiros, afirmou que “compete ao Conselho decidir por unanimidade sobre medidas de sanção”. Tal resposta, porém, retira parte do mapa político: o Conselho decide com base em propostas que, por norma, devem partir da Comissão Europeia. A omissão — a ausência de iniciativa normativa do Executivo comunitário — sugere hesitação, ou talvez uma incapacidade de encontrar o movimento decisivo no tabuleiro que preserve a coerência das políticas externas europeias.
O efeito é duplo. Por um lado, a política de Tbilisi compromete o processo de aproximação com a União, já de facto congelado, ao empurrar a Geórgia para uma órbita de influência mais próxima de Vladimir Putin. Por outro, a própria imagem da UE fica fragilizada: os alicerces da diplomacia europeia — coerência e aplicação das regras — mostram fissuras quando confrontados com interesses nacionais, laços históricos e realidades comerciais.
O caso da Índia insere outra camada nesta tectônica de poder. Em paralelo ao recente acordo comercial com Nova Deli — concebido também como contrapeso às tendências protecionistas nos Estados Unidos — a UE procura ampliar sua presença entre as economias emergentes, inclusive no terreno dos BRICS, onde a Rússia mantém influência significativa. A consequência prática, porém, é ambígua: estreitar relações comerciais pode significar, quase inevitavelmente, acomodar interesses energéticos que colidem com as sanções.
Do ponto de vista estratégico, o dilema europeu é clássico: optar por coerência normativa ou por pragmatismo geoeconômico? Não se trata de um dilema moral abstrato, mas de uma decisão que redesenha linhas de influência. Se a UE vacilar, perderá margem de manobra e legitimidade; se agir em bloco, precisa antes desenhar uma estratégia coerente que vá além do verniz retórico e chegue ao coração das decisões executivas.
No xadrez diplomático contemporâneo, cada movimento gera contramovimentos. A Comissão tem agora a responsabilidade de transformar embaraço em iniciativa: propor, articular e coordenar. Sem isso, o cenário continuará a favorecer aqueles que, como Moscou, observam e tiram proveito das brechas na arquitetura europeia.






















