Por Marco Severini — Em um testemunho sóbrio perante a comissão de Assuntos Exteriores do Parlamento Europeu (AFET), a comissária da UE para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, explicou os contornos de sua participação como observadora na primeira sessão do Board of Peace, convocada em Washington por Donald Trump. A presença da representante comunitária, segundo Šuica, ocorreu “a pedido de Ursula von der Leyen e em sua substituição”, sem mandato expresso dos Estados‑membros.
Šuica afirmou que dois terços do encontro foram dedicados a Gaza, enquanto apenas um terço tratou de regras internas e procedimentos do novo órgão. Sua intervenção, disse, limitou‑se ao segmento focado em Gaza, onde — argumentou — é crucial que a União acompanhe a conversa para apoiar a implementação da resolução do Conselho de Segurança da ONU.
Rebatendo críticas de várias capitais europeias, a comissária sustentou que cabe à Comissão Europeia, como representante externa da União, aceitar convites internacionais de caráter protocolar. Em Washington, estavam representados 14 países da UE: Hungria e Bulgária como membros do Board; e como observadores, Reino de Chipre, Itália, República Tcheca, Croácia, Eslováquia, Áustria, Alemanha, Finlândia, Grécia, Países Baixos, Polônia e Romênia.
Os eurodeputados da AFET apontaram, porém, riscos estratégicos: a presença do executivo comunitário em um fórum idealizado por Trump pode inadvertidamente conferir legitimidade ao organismo e contribuir para o esvaziamento dos alicerces multilaterais, em especial do papel das Nações Unidas. Em termos de geopolítica, é como mover uma peça decisiva num tabuleiro onde as fronteiras da autoridade internacional permanecem fluídas.
Šuica respondeu que a opção foi uma decisão calculada — e insistiu que “a União Europeia não é membro do Board of Peace”. Ainda assim, sublinhou que, para sustentar a aplicação da resolução 2803 do Conselho de Segurança, aprovada em novembro passado e que confere ao Board responsabilidades sobre a administração temporária da Faixa de Gaza, faz sentido mantener canais abertos.
O próprio desenho do Board of Peace suscita controvérsias: Trump ampliou o mandato do organismo, transformando‑o numa espécie de estrutura paralela à ONU para mediação de conflitos, declarou‑se presidente sem prazo definido, selecionou pessoalmente os convidados e fixou uma cota de adesão — segundo fontes citadas, na ordem de 1 bilhão de euros — para membros permanentes. Tais iniciativas reconfiguram, na prática, a tectônica de poder diplomático, impondo novas linhas de influência fora das instituições tradicionais.
Na sua defesa, Šuica afirmou que a participação da Comissão não deve ser interpretada como um endosso tácito às finalidades do Board nem como substituição ao papel da União. A posição, contudo, acende um debate mais amplo sobre até que ponto a UE pode transitar entre a cortesia diplomática e o risco de normalizar alternativas que fragilizem a arquitetura multilateral.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de uma jogada de alto risco: manter abertas vias de interlocução pode ser necessário para influenciar resultados imediatos em um teatro de crise, mas também pode redesenhar fronteiras invisíveis de legitimidade. A próxima fase desse desenho dependerá, em grande medida, das decisões dos Estados‑membros e da capacidade de Bruxelas em preservar a coerência entre sua ação externa e os princípios que sustentam o sistema internacional.





















