Bruxelas — Os dados da Frontex para janeiro de 2026 desenham um quadro de contrastes: uma queda abrupta nos movimentos migratórios irregulares nas fronteiras externas da União Europeia, porém um aumento dramático no custo humano no mar. Segundo o boletim divulgado hoje, os ingressos irregulares registados foram 5.500, uma redução de 60% face a janeiro de 2025, quando se contabilizaram 13.500 passagens.
Essa diminuição é atribuída principalmente ao maltempo que varreu a bacia mediterrânea ao longo do mês — em particular ao ciclone Harry, entre 19 e 21 de janeiro — e a ventos violentos que tornaram muitos trajetos marítimos e terrestres simplesmente impraticáveis. A agência europeia inclui no seu quadro analítico os registos do Projecto Migrantes Desaparecidos, promovido pela Organização Internacional para as Migrações (IOM), que documenta óbitos e desaparecimentos durante as travessias.
Apesar da redução no número de tentativas de travessia, o impacto humano piorou de forma alarmante: a IOM contabiliza 452 mortos ou desaparecidos no Mediterrâneo em janeiro de 2026 — mais do que o triplo das 93 vítimas registadas em janeiro de 2025. É a prova de que a diminuição de partidas não equivale a proteção; ao contrário, as condições adversas amplificam os riscos e a letalidade das travessias.
O boletim da Frontex oferece ainda um desdobramento por rotas. A rota do Mediterrâneo Oriental foi a mais utilizada, com 1.867 chegadas registradas, embora isso represente uma queda de 50% em relação ao ano anterior. Seguem-se a rota do Mediterrâneo Ocidental (1.183 chegadas, -57%) e a rota do Mediterrâneo Central (1.166 chegadas, -67%). Na rota da Mancha, as tentativas de atravessar para o Reino Unido reduziram-se 9%, com 2.281 avistamentos. A rota da África Ocidental, que havia contabilizado 4.740 chegadas em janeiro de 2025, caiu para 1.010 em janeiro de 2026 (-79%). Nos Balcãs Ocidentais registaram-se 222 atravessamentos, 74% a menos do que em janeiro do ano anterior.
O posicionamento oficial da agência é claro: as condições meteorológicas adversas “tornaram as viagens muito mais perigosas e obstruíram partidas”, mas não detiveram os lucros dos redes de tráfico. Em palavras da Frontex, mesmo sob frio extremo e mar revolto os traficantes continuaram a lançar embarcações sobrelotadas e inadequadas, expondo populações vulneráveis ao risco extremo para salvaguardar seus ganhos. Em termos estratégicos, trata-se de um movimento no tabuleiro em que a geografia e o clima reordenam temporariamente as rotas, mas não eliminam o problema estrutural.
Do ponto de vista da política migratória, estes dados sublinham uma tensão de alicerces: por um lado, a necessidade de respostas humanitárias e de salvamento ao mar; por outro, a urgência de estratégias de cooperação internacional que trabalhem sobre as causas profundas e as redes de tráfico. A tectônica de poder entre Estados costeiros, organismos internacionais e atores não estatais volta a revelar-se frágil quando se mede o custo humano.
Como analista, observo que o episódio é um lembrete de que medidas de contenção e repressão, sem vias seguras e mecanismos robustos de resgate e acolhimento, apenas deslocam tragédias. Em linguagem de xadrez: o mau tempo mudou a configuração das peças, mas o adversário — aqui, os traficantes e as dinâmicas de desigualdade que impulsionam as migrações — continua a jogar, explorando lacunas e riscos. A resposta exige, portanto, um redesenho prudente das fronteiras políticas e humanitárias, sustentado por cooperação regional e previsibilidade operacional.





















