Bruxelas, 27 de janeiro — Em um encontro que foi, em termos estratégicos, um movimento de abertura no grande tabuleiro europeu, representantes das instituições da União Europeia e de empresas do setor reuniram-se hoje no Parlamento Europeu para a sessão Road to Festival dell’Energia. A iniciativa antecede a 14ª edição do Festival dell’Energia, marcada para Lecce, de 28 a 30 de maio de 2026, sob o lema “Energia e liberdade. A Europa à prova do futuro”.
O debate concentrou-se no nó central que conecta energia e liberdade — entendida como condição habilitadora do crescimento económico, da estabilidade social e da capacidade da União de agir como ator político coeso. Em linguagem de cartografia estratégica, tratou-se de identificar os eixos de influência capazes de redesenhar fronteiras invisíveis da dependência e de reforçar os caminhos que levam à autonomia.
Foram examinados temas concretos e operacionais: o reforço de infraestruturas comuns e interconexões, a redução de dependências externas, a proteção das cadeias industriais e a gestão da volatilidade e dos choques nos mercados energéticos, de modo a garantir condições estáveis e sustentáveis para cidadãos e empresas. Em termos de política pública, o foco principal esteve na coerência entre investimentos, coesão territorial e segurança sistémica.
Raffaele Fitto, Vice‑presidente da Comissão Europeia, sublinhou a necessidade de alinhar escolhas sobre energia, competitividade e coesão. “A Comissão está a orientar políticas e recursos para investimentos que reforcem redes, infraestruturas e a segurança dos sistemas energéticos, reduzindo os divórcios territoriais e elevando a resiliência da União”, disse Fitto, numa intervenção que privilegiou o carácter concreto das medidas: apoio a infraestruturas energéticas, eficiência, fontes renováveis, redes inteligentes e comunidades energéticas. Segundo Fitto, a revisão de médio prazo da política de coesão identificou a energia como uma das cinco novas prioridades estratégicas, abrindo margem para que Estados‑membros e regiões realoquem programas e fundos para projetos que reduzam a dependência e apoiem famílias e empresas — um passo para transformar autonomia estratégica em capacidade real de desenvolvimento.
Giorgio Gori, Vice‑presidente da Comissão ITRE do Parlamento Europeu, qualificou o vínculo entre energia e liberdade como um dos nós políticos centrais da actualidade: segurança, coesão interna e competitividade num contexto geopolítico volátil. Para Gori, iniciativas como esta são essenciais para manter convergência entre visão estratégica, escolhas industriais e interesse público, com ênfase num mercado energético mais integrado, resiliente e menos exposto a dependências externas.
À mesa estiveram representantes de empresas e associações relevantes — entre elas Eni, Enel, Sogin, Acea, Inwit, Federbeton e Confindustria — em diálogo com figuras políticas como o deputado Nicola Procaccini, Chiara Trovati (DG ENER da Comissão Europeia) e Marica Cicconi, coordenadora de Ambiente e Clima da representação europeia. O encontro enfatizou que a transição energética deve ser simultaneamente técnica, económica e social: trata‑se de consolidar alicerces sólidos para uma diplomacia energética pragmática.
Do ponto de vista da estratégia internacional, eventos desta natureza funcionam como sondas diplomáticas: testam alianças, medem capacidades de investimento e antecipam os movimentos necessários para reduzir vulnerabilidades. Num tabuleiro onde a estabilidade depende da diversificação de rotas e da robustez das conexões internas, o roteiro até Lecce assume-se como uma peça-chave para desenhar políticas que, se bem executadas, transformarão a resiliência em vantagem competitiva.
O Festival dell’Energia 2026, cuja antecâmara em Bruxelas reforçou compromissos e diagnósticos, promete ser um fórum de alto nível para traduzir esse diagnóstico em iniciativas concretas — tanto na esfera das políticas europeias quanto nas escolhas industriais que determinarão a liberdade estratégica do continente nas próximas décadas.






















