Bruxelas – A Procuradoria Europeia (EPPO) de Bolonha, em cooperação com a Guardia di Finanza de Prato, determinou o sequestro de um vasto carregamento ligado a um esquema de contrabando de vestuário e tecidos proveniente da China. As operações culminaram na apreensão de cerca de 237.000 peças de roupa e mais de 5,5 milhões de metros de tecido, numa ação que revela um padrão sofisticado de fraude aduaneira e evasão do IVA.
Segundo a investigação, os bens eram importados por fornecedores chineses para depósitos italianos com o objetivo expresso de contornar os direitos aduaneiros e os pagamentos do IVA. O modus operandi envolvia, conforme demonstram as provas recolhidas, a utilização de fornecedores, compradores e moradas de entrega falsos, além da criação de empresas de fachada em vários Estados-membros — sobretudo na Polónia e na Alemanha — que serviam para reencaminhar faturas e instruções de pagamento e assim fazer crer que as mercadorias circulavam internamente ao bloco comunitário.
Esta engenharia fiscal permitiu que, ao longo dos últimos três anos, os responsáveis não pagassem os direitos aduaneiros e deixassem de liquidar o IVA na importação num total estimado em 3,6 milhões de euros. A carga apreendida estava distribuída por quatro armazéns clandestinos, todos sob controlo de cidadãos de origem chinesa localizados em Prato, cidade histórica do setor têxtil italiano.
O operativo sucede a uma apreensão anterior, ocorrida em novembro de 2025, quando mais de 2,2 milhões de metros de tecido foram já retirados do circuito. Com esta nova intervenção, o valor global dos bens confiscados aproxima-se dos 10 milhões de euros, segundo balanço provisório das autoridades.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da fiscalização aduaneira: a fraude aqui descrita não é apenas uma evasão tributária, mas um redesenho invisível de fronteiras comerciais dentro do mercado único, apoiado por uma teia de empresas fictícias que funcionam como peças móveis numa partida de xadrez fiscal. A sua desmontagem exige coordenação transnacional, investigação financeira detalhada e uma capacidade de mapear a circulação de capital e mercadorias que ultrapassa a mera atuação local.
As implicações vão além do prejuízo imediato ao erário: esquemas deste tipo fragilizam os alicerces da concorrência leal na indústria têxtil europeia e distorcem cadeias de abastecimento legítimas. A atuação conjunta da EPPO e da Guardia di Finanza sinaliza uma tectônica de poder mais assertiva, na qual a aplicação da lei económica se adapta para enfrentar redes transnacionais de fraude.
As investigações prosseguem, com a procura europeia a apurar responsabilidades penais e patrimoniais, enquanto se avaliavam medidas adicionais contra as entidades envolvidas. Para analistas de políticas públicas e operadores do setor, o caso reforça a urgência de mecanismos comunitários de due diligence e de rastreamento aduaneiro mais intrusivos, capazes de detectar movimentações que tentam mascarar importações como operações intra-UE.
Marco Severini, Espresso Italia — análise e interpretação: um movimento jurídico-administrativo que contém, além da punição imediata, uma lição estratégica sobre a necessidade de proteger a integridade do mercado comum europeu.






















