Bruxelas – Com a calma de quem observa um jogo de xadrez em andamento, o Eurostat oficializou os números de janeiro: a inflação na Eurozona ficou em 1,7%, uma retração de 0,3 pontos percentuais em relação a dezembro. Os dados consolidados confirmam, portanto, as estimativas preliminares já divulgadas no início do mês.
O detalhamento setorial mantém a mesma direção, mas revela nuances importantes para a arquitetura das políticas públicas. O índice de serviços registrou 3,2% (ante 3,4% em dezembro), enquanto os bens industriais não energéticos marcaram 0,4% (frente a 0,3% em dezembro). Já a rubrica géneros alimentares, álcool e tabaco foi ajustada para 2,6%, com um recuo de 0,1 ponto percentual versus dezembro (ajuste menor do que a primeira estimativa de 0,2 pp). A componente energia permanece com a maior volatilidade: agora em -4%, representando um decréscimo de 1,1 ponto percentual em relação a dezembro (ligeiramente diferente da prévia, que apontava 1,2 pp).
Do ponto de vista analítico, esses números compõem um panorama onde os alicerces da inflação permanecem heterogêneos. A desaceleração geral — de 0,3 pp mês a mês — é significativa, mas a persistência de pressão nos serviços recorda que a inflação subjacente continua a demandar atenção. Em termos de governança económica, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: folga para políticas mais cautelosas, mas sem sinais definitivos de que a batalha contra a inflação esteja vencida.
Para formuladores e mercados, a leitura exige prudência. A trajetória descendente da energia alivia pressões imediatas, porém a rigidez dos preços nos serviços e a moderação nos bens industriais não energéticos sugerem um cenário de transição, não de resolução. Em termos geopolíticos e de estabilidade financeira, o resultado reforça a necessidade de políticas monetárias e fiscais que sejam coordenadas, evitando movimentos abruptos que possam desalinhar o equilíbrio entre crescimento e estabilidade de preços.
Em suma, o relatório do Eurostat é uma confirmação técnica de uma diminuição da inflação a curto prazo, mas também um lembrete de que as dinâmicas internas da zona do euro continuam a depender de vários vetores: oferta de energia, custos de serviços e choques externos. Como analista, vejo aqui um redesenho de fronteiras invisíveis entre prioridades macro e microeconômicas — e um convite implícito ao Banco Central Europeu e aos governos para jogarem com mão firme, porém calibrada.
Marco Severini
Analista sênior, Espresso Italia — Voz em geopolítica e estratégia internacional






















