Bruxelas – O Parlamento Europeu deu nesta terça-feira um movimento decisivo no tabuleiro da migração: aprovou de forma definitiva duas medidas que redesenham a arquitetura do sistema de asilo da União Europeia.
Em votações separadas, a maioria parlamentar de centro-direita e direita radical deu aval final à primeira lista de países de origem seguros da UE e à revisão dos critérios para aplicação do conceito de país terceiro seguro. São passos que institucionalizam o que, na prática, muitos já descrevem como o modelo Albânia: externalização das etapas de triagem e aceleramento das decisões fora dos habituais parâmetros protetivos.
A lista UE de países de origem seguros, que inicialmente incluirá Kosovo, Bangladesh, Colômbia, Egito, Índia, Marrocos e Tunísia, foi aprovada por 408 votos a favor, 184 contra e 60 abstenções. O regulamento sobre a aplicação do conceito de país terceiro seguro obteve 396 votos a favor, 226 contra e 30 abstenções. Esses resultados eram esperados: ambos os textos, propostos pela Comissão Europeia na primavera passada, já haviam sido chancelados em fases prévias do processo legislativo e confirmados nas negociações interinstitucionais. Este é o último ato do percurso legislativo.
No tabuleiro político, além das formações de extrema-direita – Europe of Sovereign Nations, Patriots for Europe e Conservadores e Reformistas – o endurecimento foi apoiado de forma coesa pelo Partido Popular Europeu. O grupo Renew apresentou dissidências internas; entre os Socialistas e Democratas, cerca de vinte eurodeputados votaram a favor. Nas delegações italianas, Lega, Fratelli d’Italia e Forza Italia votaram por um padrão mais restritivo, enquanto Partido Democrático, Movimento 5 Stelle e Aliança Verdi e Sinistra se opuseram.
Ambos os regulamentos fazem parte do Pacto para a Migração e o Asilo, cuja entrada em vigor está prevista para junho próximo. Na prática, a aprovação da lista implica que os Estados-membros terão a obrigação de aplicar procedimentos acelerados ou de fronteira para cidadãos provenientes das nações incluídas: os pedidos de proteção internacional deverão ser avaliados em, no máximo, três meses — reduzidos em relação ao padrão precedente de seis meses — e as pessoas permanecerão detidas durante todo o período processual.
A lista comum passa a ter caráter vinculante, ainda que os Estados possam compor listas nacionais mais extensas. Ademais, os governos poderão acelerar o exame de pedidos para cidadãos oriundos de países cujo índice de reconhecimento de asilo seja inferior a 20% e designar, no plano nacional, Estados terceiros ou de origem como “seguros” para efeitos processuais, dentro dos contornos legais previstos pelo novo pacto.
O triunfo político do modelo de externalização e da racionalização dos fluxos traduz-se, contudo, em perdas concretas para os migrantes: direitos substanciais de proteção serão comprimidos, com risco acrescido de vulneração de garantias processuais e de segurança jurídica. Em termos estratégicos, a Europa arrisca erosões na credibilidade normativa que a distinguiu por décadas no palco internacional — um redesenho de fronteiras invisíveis, com implicações geopolíticas e humanitárias a médio prazo.
Como analista, observo que este movimento não é apenas legislativo, mas geopolítico. É um lance que procura redefinir alicerces: reduzir pressões internas e deslocar custos e responsabilidades para além das fronteiras comunitárias. Resta ver se essa tectônica de poder produzirá a estabilidade prometida ou aprofundará as fragilidades éticas e políticas da União.
Marco Severini, Espresso Italia — análise sobre a decisão do Parlamento Europeu e seus efeitos estratégicos.






















